Entre igrejas centenárias, bares de tapas e o aroma dos vinhos Garnacha, há uma outra Espanha que continua longe do turismo massificado. Uma Espanha mais autêntica, mais calma e profundamente ligada às suas tradições. Foi precisamente esse lado que o Vou Sair descobriu numa viagem de imprensa a convite do Turismo de Espanha, entre 15 e 19 de abril.
Situada estrategicamente entre Madrid e Barcelona, Saragoça continua a ser, para muitos turistas, apenas uma cidade de passagem. O comboio de alta velocidade coloca a capital aragonesa a cerca de 1h20 de ambas as cidades, tornando-a numa paragem conveniente para um city break rápido. Mas Saragoça quer deixar de ser apenas um ponto intermédio no mapa. A cidade está a apostar cada vez mais em afirmar-se como destino turístico final – e motivos não faltam.
Aqui, o turismo ainda não tomou conta das ruas. O comércio local resiste com orgulho, as lojas centenárias continuam abertas, os cafés históricos mantêm o charme de outros tempos e a identidade aragonesa sente-se na gastronomia, na arquitetura e até nos pequenos detalhes do quotidiano.
Ao longo desta viagem, houve também oportunidade de conhecer Calatayud e Teruel, destinos que estarão em destaque na segunda parte da reportagem.
Dormir num edifício modernista de 1903

Durante a estadia em Saragoça, ficámos alojados no Hotel Catalonia El Pilar, um hotel de quatro estrelas instalado num edifício histórico modernista construído em 1903, no coração do centro.
O edifício preserva elementos originais, incluindo os antigos elevadores de madeira e a entrada secular. No piso térreo funcionava antigamente um negócio de tecidos. Hoje, combina o património arquitetónico com uma localização privilegiada: fica a apenas dois minutos a pé da Basílica del Pilar e do mercado central, bem como de diversos restaurantes e bares de tapas.
O hotel dispõe ainda de ginásio e restaurante com buffet de pequeno-almoço e pratos tradicionais aragoneses ao jantar. O preço por noite varia geralmente entre 50€ e 120€, dependendo da época e antecedência da reserva.
Plaza del Pilar, duas catedrais e um palácio: a história de Saragoça
A Plaza del Pilar é o grande centro da vida da cidade e uma das maiores praças pedonais da Europa. Com capacidade para cerca de 40 mil pessoas, recebe concertos, eventos culturais e atividades para crianças ao longo do ano.
É também aqui que Saragoça guarda uma das suas maiores singularidades: é a única cidade do mundo com duas catedrais ativas – mas apenas com um bispo, conforme oficialmente declarado pelo Papa da época em 1676.
De um lado ergue-se a imponente Basílica de Nossa Senhora do Pilar, uma joia barroca e um dos principais santuários marianos da cristandade. Do outro encontra-se a Catedral do Salvador, conhecida como La Seo, uma extraordinária mistura de estilos românico, mudéjar e neoclássico.


A Basílica de Nossa Senhora do Pilar impressiona logo à chegada pelas suas enormes cúpulas e dimensão monumental. Construída entre os séculos XVII e XVIII, é considerada o primeiro santuário mariano da cristandade.
Segundo a tradição, a Virgem Maria terá aparecido ao apóstolo Tiago no ano 40 d.C., sobre um pilar de jaspe. A pequena imagem da Virgem continua hoje sobre essa mesma coluna, revestida a bronze e prata. No interior, uma das tradições mais marcantes é a dos mantos da Virgen del Pilar. Existem mais de 600 mantos oferecidos por fiéis, instituições e países ao longo dos séculos, que vão sendo trocados diariamente como forma de agradecimento e devoção.
Outro símbolo muito popular são as pequenas fitas de seda coloridas vendidas no interior da basílica. Representam a altura exata da imagem original da Virgem – 36,5 centímetros – e funcionam como amuleto de proteção. Custam entre 1€ e 2€ e podem ser compradas em máquinas automáticas ou na loja de souvenirs.
Para quem não tem medo de alturas, uma das experiências mais impressionantes é subir à Torre Mirador del Pilar. O acesso faz-se por elevador panorâmico seguido de 101 degraus em escadaria espiral. A visita dura cerca de 15 minutos e a torre tem capacidade máxima para 20 pessoas, sendo aconselhável reservar online. Lá em cima, as vistas de 360 graus revelam os telhados coloridos da basílica, o Rio Ebro e o mar de cúpulas que desenha o horizonte de Saragoça.
O bilhete completo para visitar a catedral, o Museu Pilarista, o Museu da Tapeçaria e a torre custa cerca de 12€.

A poucos metros encontra-se a Catedral do Salvador, mais conhecida como La Seo. Construída sobre a antiga mesquita principal da cidade muçulmana de Saraqusta, a catedral é um verdadeiro mosaico arquitetónico.
O local já tinha sido fórum romano, depois grande mesquita islâmica e, mais tarde, catedral cristã. A construção da atual La Seo começou no século XII, integrando elementos da antiga mesquita. Foi também aqui que, durante séculos, se realizaram as coroações dos reis de Aragão.
Um dos destaques é a parede exterior da Parroquieta de San Miguel Arcángel, considerada Património Mundial da UNESCO pela sua extraordinária arquitetura mudéjar.
A entrada geral com visita ao museu custa 10€.
Calle Alfonso I: a avenida que conduz à Basílica

Uma das imagens que ficam na memória é a da Calle Alfonso I. Ao contrário das restantes ruas estreitas da zona histórica, esta ampla avenida pedonal abre caminho diretamente para a imponência da Basílica de Nossa Senhora do Pilar.
Construída no século XIX, é uma das principais artérias turísticas da cidade, mas sem o excesso de multidões que se vê noutras cidades espanholas. Pelo caminho encontram-se lojas tradicionais, cafés, restaurantes e grandes marcas internacionais, convivendo lado a lado com estabelecimentos centenários.
Entre os exemplos mais curiosos está o Café Gourmet 1885, que anteriormente funcionava como joalharia, e a Bellostas, aberta desde 1875, especializada nos tradicionais trajes aragoneses baturro – usados tanto no quotidiano como em celebrações religiosas e festividades.
O Palácio da Alegria


Outro dos monumentos imperdíveis é o Palacio de la Aljafería, um dos edifícios mais visitados da cidade. Construído no século XI como refúgio de verão dos reis muçulmanos, é considerado um dos grandes expoentes da arte hispano-muçulmana e o palácio islâmico mais a norte da Europa.
Ao longo dos séculos, serviu de fortaleza, residência real, sede da Inquisição, quartel militar e, atualmente, acolhe as Cortes de Aragão, o parlamento regional. O palácio recebe também a exposição “Goya, do Museu ao Palácio”, dedicada ao génio aragonês Francisco de Goya, um dos artistas mais influentes da história da pintura espanhola.
O bilhete simples custa cerca de 7€ e a visita guiada ronda os 9€. É aconselhável reservar online.
Saragoça cultural: entre tapas e bairros alternativos
À noite, a cidade ganha uma nova vida na El Tubo, a mais famosa zona de tapas de Saragoça. Durante o dia, este emaranhado de ruas estreitas da cidade velha mantém-se discreto, quase silencioso, com portas fechadas e pouco movimento. Mas, ao cair da noite, tudo muda: o espaço transforma-se num verdadeiro labirinto gastronómico e social, cheio de bares de tapas e pessoas que se acumulam nas ruas, entre copos e conversas.
É o local ideal para jantar e ir “saltando” de bar em bar, provando diferentes especialidades locais e deixando-se levar pelo ambiente vibrante que toma conta do centro histórico. Escolher onde parar torna-se, muitas vezes, a parte mais difícil da experiência.
Já o Barrio de La Magdalena representa uma faceta mais alternativa e criativa da cidade. Antigamente uma zona degradada, o bairro tem vindo a reinventar-se ao longo dos últimos anos, tornando-se hoje um dos mais modernos e dinâmicos de Saragoça.
As ruas estão repletas de lojas vintage, ateliers de artesanato, espaços de decoração, bares e restaurantes, criando uma atmosfera jovem e descontraída. Às quintas-feiras, ganha ainda mais vida com o popular “Juepincho”, em que muitos estabelecimentos oferecem uma bebida e uma tapa por apenas 2€.
Apesar da renovação, o bairro mantém um forte carácter histórico e religioso, visível em igrejas como San Carlos e La Magdalena, que continuam a marcar a identidade do local.


Saragoça revela ainda uma forte dimensão museológica que ajuda a completar a experiência da cidade. Entre os espaços mais interessantes destacam-se o Museu de Origami, o primeiro na Europa dedicado inteiramente a esta arte em papel. A herança da antiga cidade romana de Saragoça também está muito presente através da Rota de Caesaraugusta, que integra quatro museus distintos: o Museu do Teatro, o Museu das Termas Públicas, o Museu do Porto Fluvial e o Museu do Fórum.
Outro ponto curioso da zona cultural é a Plaza de San Felipe, onde outrora existiu a Torre Nueva, uma torre mudéjar inclinada construída em 1504 e demolida em 1892. Com cerca de 80 metros de altura e uma inclinação de quase três metros, chegou a ser comparada à Torre de Pisa. Hoje existe no local uma escultura de um menino a olhar para o ponto onde se encontrava o topo da antiga torre, da autoria do escultor espanhol Pablo Gargallo.
Onde e o que comer em Saragoça
A gastronomia aragonesa foi, sem dúvida, uma das grandes surpresas desta viagem. Simples na origem, mas rica em identidade, é uma cozinha que valoriza o produto local e onde cada ingrediente conta a história da região.
Um dos produtos mais emblemáticos da região é a borraja, ou borragem, utilizada em inúmeros pratos típicos de Aragão. Cerca de 75% da produção espanhola desta planta concentra-se aqui. Ao lado da borraja, destacam-se ainda o Jamón de Teruel e o Ternasco de Aragão, três pilares incontornáveis da gastronomia local.
Saragoça afirma-se ainda como Capital Mundial da Garnacha. A cidade está rodeada por três denominações de origem vínica – Campo de Borja, Cariñena e Calatayud – responsáveis por alguns dos vinhos Garnacha mais reconhecidos de Espanha. Com sabores intensos, personalidade marcada e aromas expressivos, a Garnacha tornou-se uma verdadeira embaixadora da identidade gastronómica da região.



Uma verdadeira viagem ao passado é a Pastelería Fantoba, fundada em 1856 e considerada uma das melhores pastelarias de Saragoça. O aroma a chocolate sente-se logo à entrada. As especialidades da casa são as Frutas de Aragão – frutas cristalizadas cobertas com chocolate negro – e o guirlache, um doce típico à base de amêndoa e caramelo. Uma caixa de Frutas de Aragão custa 15€, tal como uma caixa com dez barras de guirlache.
Entre paragens gastronómicas estão espaços como a Puro Vicio Cakes, conhecida pelos cheesecakes feitos com queijo da região, ou o histórico La Republicana, fundado em 1983 e com prato do dia a 15,90€. Para churros tradicionais com chocolate, uma das referências é a La Fama. Já o Bar El Circo é conhecido por servir uma das melhores tortillas de batata da região.
Outro local curioso é o Pasaje del Comercio y de la Industria, popularmente conhecido como Pasaje del Ciclón. Construído entre 1882 e 1883, segue o estilo das galerias comerciais europeias da época, especialmente as de Paris. Hoje acolhe cafés e restaurantes, como o trendy Botánico, conhecido pelas tostas, crepes, tortitas, smoothies e sumos naturais.



A experiência gastronómica elevou-se ainda mais no La Flor de Lis, uma alta taberna aragonesa que trabalha produtos locais com uma abordagem moderna e criativa. Entre os pratos provados destacam-se o bolinho de bacalhau, borraja e batata com espuma de borraja (4€), as alcachofras fritas com creme de presunto de Teruel e torresmo (17€) e o lingote de Ternasco de Aragão com molho demi-glace de moscatel e trufa (22€).
A viagem incluiu também um workshop gastronómico na La Zarola, um espaço de experiências culinárias e escola de cozinha no centro da cidade. A experiência custa cerca de 50€ por pessoa e inclui normalmente dois vinhos Garnacha – um branco e um tinto.
Informações úteis para visitar Saragoça
A forma mais prática de chegar é voar até Madrid e depois seguir de comboio de alta velocidade, numa viagem que demora entre 1h15 e 1h40. Também é possível fazer o percurso de carro ou transfer em cerca de 3h15.
A melhor altura para visitar Saragoça é entre o final de abril e junho, ou entre setembro e outubro. Nos meses de julho e agosto, as temperaturas podem facilmente atingir os 40 graus.
E há uma recomendação essencial: levar calçado confortável. Saragoça faz-se sobretudo a pé – devagar, entre igrejas, tapas, vinho e ruas cheias de história.
*A jornalista viajou até Saragoça a convite do Turismo de Espanha.

























