Trocar a rotina por seis meses numa ilha praticamente só para si parece o início de um retiro bastante exclusivo. Na Great Blasket, no sudoeste da Irlanda, é uma possibilidade real. Todos os anos, os responsáveis pelo único café da ilha procuram duas pessoas dispostas a mudar-se para lá durante a temporada turística, com salário, alojamento e alimentação incluídos.
O cenário ajuda a explicar por que motivo a oportunidade desperta tanta atenção. Great Blasket está desabitada desde 1953 e não tem lojas nem cobertura de rede móvel. Em compensação, há praias de areia branca, falésias sobre o Atlântico e uma população bastante mais numerosa de focas-cinzentas do que de seres humanos.
A experiência, porém, está longe de ser umas férias de seis meses. Os escolhidos ficam responsáveis pela gestão diária do café e das casas de férias que recebem os visitantes que chegam à ilha de barco. Durante junho, julho e agosto, quando há maior movimento, juntam-se à equipa mais um ou dois trabalhadores.

Mais de 40 mil pessoas já quiseram experimentar
A vaga é lançada todos os anos por Billy e Alice, responsáveis pelo café e pelos alojamentos turísticos da ilha, e tornou-se um fenómeno nas redes sociais. Em edições anteriores, mais de 40 mil pessoas de vários países terão concorrido às duas vagas disponíveis.
O trabalho começa idealmente na última semana de março, permitindo aos selecionados conhecer o espaço e preparar a abertura da temporada, marcada para 1 de abril. A estadia prolonga-se depois até meados de outubro.
Além do salário, cujo valor é negociado diretamente com os candidatos escolhidos, estão incluídos alojamento e alimentação. A dupla dorme num quarto partilhado por cima do café, com casa de banho privada, e tem ainda uma zona de estar com salamandra e acesso à cozinha do estabelecimento.
Pode parecer um bom negócio para quem sonha desligar-se do mundo durante uns meses, mas há algumas condições que tornam a experiência bem menos idílica do que as fotografias sugerem.
Quem estiver interessado pode acompanhar os canais oficiais da Great Blasket Island Experience, onde são divulgadas as informações sobre cada temporada. O site disponibiliza ainda o contacto de Alice Hayes, responsável pelas reservas, através do email info@greatblasketisland.net.



Sem lojas e quase sem rede
Na Great Blasket não existem supermercados ou outro tipo de comércio. Tudo o que é necessário para o dia a dia tem de chegar de barco e o acesso à ilha depende sempre das condições meteorológicas e do estado do mar.
Também não há cobertura de rede móvel, embora o café tenha Wi-Fi. Se faltar alguma coisa, não existe propriamente a opção de passar rapidamente pelo supermercado. É preciso esperar pelo próximo abastecimento e aceitar que, por vezes, o mau tempo pode deixar a ilha temporariamente isolada.
Por isso, a vaga exige mais do que vontade de passar uns meses rodeado de natureza. É preciso estar preparado para viver num local remoto e para gerir um negócio turístico durante vários meses.
Great Blasket faz parte das ilhas Blasket, ao largo da costa do condado de Kerry. Nem sempre esteve vazia. A comunidade local, que vivia sobretudo da pesca, chegou a ultrapassar os 170 habitantes.
As dificuldades de ligação ao continente acabariam por tornar a vida cada vez mais complicada e, em 1953, os últimos residentes foram retirados da ilha pelo Governo irlandês.
Hoje, a população permanente continua a ser zero, mas isso muda durante a época turística. Cerca de 40 mil pessoas visitam Great Blasket todos os anos, atraídas pelas paisagens, pelas praias, pelas falésias e pela vida selvagem. É frequente avistar golfinhos no estreito e focas-cinzentas junto às rochas.
Para duas pessoas, porém, a passagem pela ilha pode durar bem mais do que algumas horas. Durante cerca de seis meses, Great Blasket transforma-se simultaneamente no local de trabalho, na casa e, provavelmente, num dos endereços mais isolados que alguma vez terão.





































