
O primeiro contacto com Tulum acontece ainda meio adormecido – mas impossível de ignorar. Depois de 9h30 de voo com a Iberojet, e outra hora e meia de transfer até ao coração da Riviera Maya, a chegada ao Bahia Principe Grand Tulum fez-se entre assobios rituais, fumo, cheiro intenso a incenso e dançarinos tribais. Ainda é madrugada em Portugal, mas ali o corpo percebe que já entrou noutro ritmo – mais lento, mais quente e profundamente ligado à terra.
Estávamos oficialmente na mega fam trip da Soltour à região de Quintana Roo, no México, organizada no âmbito das “bodas de ouro” do Grupo Piñero (ao qual pertence) e do operador turístico. Entre 5 e 12 de outubro, percorremos Tulum, Bacalar e Cancún com o olhar curioso de quem quer entender melhor o destino.
Instalado num enorme complexo que integra quatro resorts (com um quinto, o Tequila, a abrir em dezembro), o Bahia Principe convive com a selva sem tentar domesticá-la. No caminho para o pequeno-almoço – e até dentro do próprio restaurante buffet – surgem coatis, guaxinins e agoutis, animais habituados à presença humana e tão frequentes quanto as palmeiras. Mesmo quando a chuva caía com força e os primeiros dias da viagem se vestiam de cinzento, a sensação era sempre a mesma: estávamos instalados num ecossistema vivo – não apenas num resort.

Tulum: além do sol e da praia
Tulum é hoje terreno fértil para beach clubs: dos mais luxuosos e festivos, com consumos mínimos elevados, aos mais descontraídos, económicos e familiares. Visitámos o Taboo, um exemplo entre muitos, onde as águas caribenhas, apesar da fama paradisíaca, enfrentam lixo e sargaço – uma realidade comum nas praias mexicanas, tornando muitas vezes a ida ao mar pouco apelativa.



Mas Tulum quer deixar de ser apenas sol e praia para se posicionar como destino premium, e o golfe tem sido decisivo nesse caminho. No Tulum Country Club, dentro do complexo Bahia Principe, o campo de golfe cruza-se com um ambicioso projeto imobiliário. A realização de torneios internacionais e a aposta em formação – com uma academia de golfe para todas as idades, dos 3 aos 80 anos – têm sido estratégicas para diversificar o destino.
A poucos metros, o compromisso ambiental ganha forma através da Fundação Eco-Bahia, criada em 1999 pelo Grupo Piñero. O trabalho desenvolve-se em quatro áreas principais – educação ambiental, conservação da fauna, preservação de corais e investigação científica – e estende-se hoje também à República Dominicana.
Um dos símbolos dessa missão é a proteção da mariposa-monarca, agora com o seu Dia Nacional celebrado a 10 de novembro. O inseto migratório, que percorre até 4.500 km e hiberna durante quatro meses, ocupa hoje menos de três hectares de bosque. Tóxica por natureza e inseparável da planta asclépia, a mariposa está profundamente ligada ao Dia de los Muertos, simbolizando a alma dos antepassados.


Tivemos ainda a oportunidade rara de participar numa atividade de proteção e conservação de tartarugas marinhas promovida pela Fundação Eco-Bahia: a soltura de tartarugas-bebé rumo ao mar. O momento acontece sempre à noite, sob a ténue luz vermelha permitida, e em silêncio. Sem fotografias, sem flash, sem ecrãs ligados – qualquer foco luminoso pode desorientar as crias e afastá-las da rota instintiva que as conduz ao oceano. É um daqueles instantes sem registos digitais, mas que ficam impressos na memória.
A Fundação Eco-Bahia mantém uma equipa de onze vigilantes que supervisionam diariamente – de dia e de noite – as praias do complexo Bahia Principe, garantindo que cada ninho é identificado, monitorizado e protegido. Entre os responsáveis está Ita Ramos, que nos explicou que o período de nidificação decorre de maio a outubro e que os ovos incubam entre 45 e 60 dias.
Recordou também que o México é conhecido o “país das tartarugas”, por acolher seis espécies, que se encontram hoje em perigo de extinção devido, em parte, a causas humanas, como pesca e consumo ilegal de ovos. Para as proteger, o resort apaga as luzes próximas do mar entre as 20h00 e as 06h00, de maio a novembro, evitando que as crias se confundam com a luz artificial e se afastem do oceano.
Parque del Jaguar: herança maia entre selva e mar
Parte do coração histórico de Tulum bate no recém-organizado Parque del Jaguar, uma reserva federal com mais de 27 km² que protege selva, fauna e património arqueológico. Aqui, as regras são claras: nada de plásticos, tabaco ou veículos poluentes. A circulação faz-se a pé e em carrinhos elétricos que desaceleram junto às ruínas, permitindo observar – e fotografar – os monumentos sem interromper o fluxo.
O parque abriga uma zona arqueológica que, apesar de não ter a grandiosidade – nem a capacidade de organização – de Chichén Itzá, é uma alternativa interessante para quem procura continuar a explorar a cultura maia. Com apenas um ano de abertura, inclui praias protegidas, torres de observação, trilhos florestais e um museu repleto de artefactos maias.
Acompanhados por Stitch, guia descendente da civilização maia, aprendemos que Tulum era conhecida pelos maias como Zama, “o lugar do amanhecer”, por ser um dos primeiros pontos do Caribe mexicano a receber a luz solar devido à sua posição geográfica.
No Parque del Jaguar encontra-se uma das praias mais importantes do tempo dos maias – era ali que chegavam as embarcações comerciais e onde hoje se abre uma vista deslumbrante para o mar das Caraíbas. Tulum foi um dos principais portos comerciais do mundo maia, graças a bens como a obsidiana (um cristal vulcânico utilizado em ferramentas) e o mel, considerado medicinal.
Mestres da astronomia e da engenharia, os maias combinavam as duas áreas com precisão para erguer construções em função dos astros. Os templos, edifícios e até as portas alinham-se com os ciclos do sol e da lua e marcam solstícios e equinócios, fundamentais para organizar o calendário, planear rituais e determinar o início e o fim da atividade agrícola.
O parque mostra também uma civilização profundamente ligada à natureza. Um dos exemplos é a árvore Siricote, presente no Parque del Jaguar: a folha funcionava como uma espécie de lixa natural e a flor era usada pelos maias como pigmento em monumentos e edifícios, misturada com resinas naturais.
O nome “Jaguar” não é simbólico por acaso. O parque é uma zona protegida porque a selva que o rodeia ainda é habitat de jaguares (entre outras espécies), animais considerados sagrados pelos maias, vistos como símbolos de força e proteção.
Ichkabal e Bacalar: arqueologia, selva e paraíso azul
A Península de Yucatán esconde quilómetros e quilómetros de cenotes interligados por rios subterrâneos e grutas, num total estimado de 10 mil. São cavidades inundadas – abertas, semiabertas ou completamente subterrâneas – outrora vistas pelos maias como portais para o submundo.
A cerca de 2h30 de Tulum fica Bacalar, uma pequena cidade no extremo sul da península. O lugar é famoso pela Lagoa das Sete Cores, cujo nome vem dos vários tons de azul que pintam as suas águas. O fenómeno resulta da mistura de água doce com salgada, da presença de minerais como cálcio e enxofre e dos raríssimos estromatólitos – fósseis vivos e as formas de vida mais antigas do planeta.
Tratam-se de estruturas rochosas compostas por bactérias milenares que produzem oxigénio e influenciam a química da água. No entanto, o turismo e a poluição estão a acelerar a degradação dos estromatólitos — e, com isso, a ameaçar a cor vibrante da lagoa, entre outros impactos ambientais. Para protegê-la, a lagoa fecha um dia por semana, às quartas-feiras.
No período maia, Bacalar foi um porto estratégico: a lagoa funcionava como via fluvial para ligar cidades do interior ao Caribe. Hoje, transformou-se num destino turístico de prestígio, com um número crescente de estrangeiros abastados a comprar casas nas margens da lagoa, disse-nos o nosso guia.
Aqui, nadámos em cenotes profundos e passámos pela Ilha dos Pássaros e pelo Cenote Negro (ou Cenote de las Brujas) – o maior do México, com cerca de 150 metros de profundidade, onde não é possível mergulhar devido a correntes de água que provocam remoinhos.



A cerca de 30 km de Bacalar surge Ichkabal, um dos sítios arqueológicos mais recentes a abrir ao público, rodeado por cerca de 17 quilómetros de selva. Com origens estimadas entre 200 e 400 d.C. e uma população que terá chegado aos 120 mil habitantes, foi um poderoso centro político e cultural do mundo maia, potencialmente rivalizando com Chichén Itzá em certas épocas.
Mas a comparação fica por aí. Ichkabal está muito pouco restaurada por razões ecológicas e financeiras – e isso nota-se. O parque ainda está longe da imponência de Chichén Itzá e pode até parecer decepcionante para quem espera estruturas grandiosas. As ruínas mantêm um aspeto quase intocado, com a vegetação a disputar espaço com as pedras antigas. Aberto apenas desde janeiro de 2025, o local continua em fase de estudo, com drones a mapear estruturas escondidas sob a flora. Na selva ao redor, disseram-nos os guias, é possível avistar jaguares, crocodilos e serpentes.
O regresso de Bacalar para Tulum fez-se a bordo do Trem Maya, uma moderna linha férrea de 1.554 quilómetros construída para ligar vários destinos da Península de Yucatan. O projeto, porém, é polémico: segundo cientistas e especialistas, divide a selva ao meio e levanta preocupações ambientais sérias, sobretudo pela desflorestação e pelo impacto nos sistemas de cavernas e rios subterrâneos. Há zonas da selva que praticamente permaneciam intocadas desde a era dos maias – até à construção do novo caminho-de-ferro.
Cancún: outro ritmo, outra escala
O contraste é imediato. Cancún, que há 50 anos praticamente não existia e hoje ultrapassa um milhão de habitantes, tornou-se uma cidade vertical, dinâmica e cosmopolita. Além de destino de lazer, é também um polo emergente de turismo de saúde, atraindo visitantes à procura de operações estéticas, como botox e implantes, e jovens que chegam à procura de vida urbana e diversão.
Segundo o nosso guia, no Porto de Cancún há apartamentos que chegam aos 8 milhões de euros, muitos deles comprados por estrangeiros que ali mantêm a segunda casa. A cidade recebe quase 10 milhões de turistas por ano – um boom difícil de imaginar para um lugar onde, há meio século, praticamente não vivia ninguém.
A nossa estadia foi no AVA Cancún, um resort com apenas um ano de vida que funciona quase como uma pequena cidade: são 614 quartos, todos com vista mar; oito restaurantes (seis de especialidade e dois buffet); 17 estações de comida e bebida entre bares, cafés, geladarias e bancas de crepes; um teatro com 445 lugares; spa, wellness center e uma gigantesca piscina de água salgada.
Aqui, tudo é pensado para um viajante que quer ficar – e consumir – dentro do hotel. Há galeria de arte e uma lista enorme de atividades pagas à parte: bowling, simulador de Fórmula 1, salão de jogos, laser tag, escape room, loja de vinhos, discoteca e até um bar de NFTs. A sensação geral é a de estar num centro comercial futurista: pouco remete para a natureza e quase nada faz sentir que estamos no México.
Na praia privada do resort, existe uma barreira de anti-sargaço instalada para minimizar o problema das algas, mas a coloração castanha da água faz com que a piscina seja, para muitos, a alternativa preferida para dar um mergulho.

Da Isla Contoy à Isla Mujeres: natureza protegida e turismo em massa
Mas Cancún também tem outro lado. A norte da cidade, a Isla Contoy é um verdadeiro paraíso intocado: mar azul-turquesa, areia branca e vegetação preservada, o cenário típico das Caraíbas. Área protegida desde os anos 60, o parque nacional só recebe 200 visitantes por dia. Por esta razão, a ilha é regida por um mote simples: “o que está na ilha é para a ilha”, repetia o guia Tai. Nada entra e nada sai — sem plástico, sem protetor solar ou repelente químico, sem tabaco (incluindo eletrónico), sem levar conchas para casa e sem tocar nos animais.
Conhecida como “Ilha dos Pássaros”, conta com 178 espécies de aves e é ainda dos mais importantes santuários de tartarugas marinhas do Caribe. A Isla Contoy já era visitada pelos maias – há vestígios humanos com mais de mil anos – e funcionava como ponto de passagem para embarcações comerciais ao redor da península.


A cerca de 30 quilómetros está a Isla Mujeres, um paraíso que virou sinónimo de turismo – e que, com isso, perdeu algum charme. A ilha tem a mesma dimensão aproximada de Contoy (8 km²) e fica a apenas 15 minutos de ferry de Cancún. É famosa pelas praias paradisíacas como a Playa Norte, pelos mergulhos, restaurantes e passeios de carrinho de golfe.
À primeira vista, a Isla Mujeres ainda cumpre a promessa: águas turquesa que parecem retocadas digitalmente, areia branca e estradas costeiras onde carrinhos de golfe circulam entre palmeiras. Mas, por baixo da imagem de postal, a popularidade está a cobrar o seu preço.
O que foi uma vila piscatória tranquila transformou-se num destino saturado. Os turistas de um dia desembarcam a meio da manhã em excursões organizadas que enchem as ruas estreitas. As lojas de artesanato deram lugar a bugigangas produzidas em massa e muitos restaurantes competem mais por clientes do que por identidade.
Tradição maia que perdura
Antes da despedida, rumámos a Dos Palmas, uma comunidade maia de cerca de 250 pessoas, onde o turismo é familiar, sustentável e ligado ao quotidiano local. Entre casas tradicionais, uma escola bilíngue (maia e espanhol) e pequenos negócios, vivem-se tradições que resistem ao tempo: o pão de milho e água, a agua de Jamaica (feita com flor de hibiscus e mel) e o temazcal, um ritual ancestral de cura e purificação.
O temazcal decorre numa cabana de vapor com pedras quentes e ervas medicinais. Passámos cerca de 30 minutos no interior, a inspirar o vapor aromático enquanto entoávamos cânticos tradicionais maias. O objetivo é limpar corpo e espírito, refletir sobre intenções e deixar para trás o que já não faz falta. No final, mergulhámos no Cenote Dos Palmas, de água cristalina, fresca e completamente limpa – um contraste perfeito depois do calor intenso da cabana.
Entre resorts de luxo e selva protegida, beach clubs e templos alinhados com os astros, Tulum e Cancún revelam duas faces do mesmo México: um país onde o futuro cresce depressa, mas onde o passado continua a marcar o ritmo.
*A jornalista viajou para o México a convite da Soltour


















































