Chef Noélia Jerónimo

Há um lado do Algarve que se vive de forma mais lenta. Em Olhão, os dias continuam a girar em torno da Ria Formosa, dos barcos que regressam à marina e da gastronomia ligada ao mar. Foi esse ritmo que encontrámos durante um fim de semana no Real Marina Hotel & Spa, entre 1 e 3 de maio.

Logo à chegada, percebe-se que a localização é parte essencial da experiência. O hotel está literalmente voltado para a marina e para a Ria Formosa, com uma vista aberta sobre os barcos e as ilhas ao fundo. O quarto seguia a mesma lógica: luminoso, confortável e com uma varanda ampla que rapidamente se tornou um dos nossos lugares preferidos para desacelerar entre programas. Mas o verdadeiro centro deste fim de semana estava fora do quarto e, sobretudo, à mesa.

Real Marina Hotel & Spa

A primeira experiência começou ao final da tarde, a bordo de um pequeno barco privado organizado pelo próprio hotel. Em parceria com a Passeios da Ria Formosa, o Real Marina organiza diferentes percursos de barco pela ria, criando uma ligação direta entre a paisagem, os produtores locais e aquilo que depois chega ao prato. 

Enquanto o sol começava a descer, passámos pelos viveiros de ostras junto à Ilha da Armona, acompanhados por uma explicação detalhada sobre o cultivo e a importância desta produção local. Entre copos de champanhe e ostras acabadas de abrir, havia qualquer coisa de muito simples e muito especial naquele momento. De regresso ao hotel, o jantar no restaurante Marina com Noélia trouxe outra dimensão ao fim de semana.

Instalado na zona exterior do hotel e aberto durante a época alta, o restaurante assume-se como uma extensão natural da experiência do Real Marina, com vista privilegiada sobre a Ria Formosa e uma carta totalmente construída em torno do produto local.

À frente da cozinha está Noélia Jerónimo, uma das figuras mais respeitadas da gastronomia nacional e presença habitual em programas como o MasterChef Portugal. Mas mais do que o currículo, o que se sente ali é uma enorme proximidade com o produto e com as pessoas. A chef circula pela sala, fala com os clientes, explica pratos e transmite uma sensação genuína de hospitalidade.

O jantar começou com o couvert (7€), composto por azeitonas, manteiga com sal fumado, um puré de cenoura algarvia surpreendentemente delicado e pão de massa mãe da conhecida padaria Kubidoce, em Olhão. A acompanhar, surgiu o Edd’s 2023, um vinho regional algarvio fresco e equilibrado, perfeito para abrir a refeição.

Os croquetes de pescada com caril (10€) foram o primeiro momento marcante. Crocantes por fora e extremamente cremosos por dentro, tinham um toque subtil de especiarias que nunca se sobrepunha ao sabor delicado do peixe.

Logo depois chegou o ceviche de dourada e abacate (19€), onde a frescura do peixe se cruzava com milho crocante e uma acidez muito limpa, criando um daqueles pratos que parecem leves mas cheios de detalhe.

Mas talvez tenha sido a canja de berbigão e coentros (23€) que melhor resumiu a identidade da cozinha da Noélia. À primeira colher, sabia intensamente a Algarve. Havia alho, limão, coentros e arroz, mas acima de tudo havia conforto. O sabor delicado do berbigão misturava-se com a sensação familiar de uma canja caseira, criando um prato simultaneamente sofisticado e profundamente emocional.

O arroz crocante de robalo (58€ para duas pessoas) fechou o jantar num registo mais indulgente. Feito no forno, com açafrão, mostarda Dijon e maionese de wasabi, tinha uma camada crocante irresistível no topo, enquanto o interior se mantinha cremoso e cheio de sabor.

A sobremesa trouxe um bolo fofo de amêndoa com gelado de baunilha (7€), simples e reconfortante, perfeito para terminar uma refeição onde nada parecia excessivo, mas tudo parecia pensado ao detalhe.

No dia seguinte, acordámos devagar. Antes de voltarmos para a ria, ainda houve tempo para aproveitar a piscina exterior do hotel, quase suspensa sobre a marina, com vista aberta para os barcos e para a Ria Formosa. Entre o silêncio da manhã e o reflexo da água, era difícil encontrar pressa para sair dali.

O passeio pelas ilhas da Ria Formosa, também organizado através do hotel, levou-nos até ao Farol e à Culatra. A praia da Ilha do Farol revelou-se um dos momentos altos do dia, com areia clara, água cristalina e uma tranquilidade difícil de encontrar noutras zonas do Algarve. Na Culatra, houve tempo para observar o ritmo mais lento da ilha e perceber como a vida continua profundamente ligada ao mar.

Ao final da tarde, regressámos à piscina para cocktails ao pôr do sol, antes do segundo jantar no Marina com Noélia. E foi aí que surgiu o prato que provavelmente ficou mais tempo connosco depois da viagem: o arroz caldoso de carabineiro e espargos (95€). Intenso, profundamente saboroso e incrivelmente equilibrado, é daqueles pratos que quase obrigam a parar a conversa durante alguns segundos. O caldo tinha uma profundidade impressionante, cheio de sabor a mar e ao próprio carabineiro, enquanto os espargos acrescentavam frescura e textura. Facilmente um dos melhores arrozes que provámos nos últimos tempos.

Antes disso, passaram pela mesa ostras ao natural (18€), muxama com gaspacho de tomate (14€) e lingueirão à Bulhão Pato (24€). E, como se isso não bastasse, a própria Noélia trouxe ainda cavala curada com molho de maracujá e ovas de choco compradas no mercado de Olhão nesse mesmo dia. Pequenos momentos que mostram bem a relação direta da chef com o território e com os produtores locais.

A sobremesa, um abade de priscos com citrinos (6€), fechou a refeição com o equilíbrio certo entre tradição e frescura.

No último dia, ainda tivemos tempo para experimentar outra das propostas do hotel: a Rota das Lendas, outra experiência disponibilizada pelo hotel, que custa 5€ por pessoa e percorre histórias, figuras e episódios tradicionais ligados à cidade. Entre ruas estreitas, referências à comunidade piscatória e pequenas curiosidades locais, é uma forma mais descontraída de conhecer o lado histórico de Olhão sem cair no formato turístico mais convencional.

Arroz caldoso de carabineiro e espargos

Aos domingos, o hotel prolonga ainda a ligação à gastronomia com o Brunch da Ria, servido por 27,5€ por pessoa. Entre saladas frescas, pratos quentes, sobremesas e estação de showcooking, a proposta mantém a mesma lógica do resto da experiência: produto local e ambiente descontraído que encaixa perfeitamente no ritmo lento de Olhão. 

Ao longo de todo o fim de semana, houve uma sensação constante: a de que tudo estava ligado entre si. A ria, os pescadores, os mercados, os vinhos algarvios, os passeios de barco e a cozinha da Noélia faziam parte da mesma narrativa.

O Real Marina Hotel & Spa acaba por funcionar como ponto de partida para viver o Algarve de forma mais lenta, mais próxima e mais autêntica. E talvez seja precisamente isso que hoje torna um destino verdadeiramente especial.

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