Créditos: Azuma Farm Koiwai

Durante muito tempo, passar férias numa quinta esteve associado a alojamentos simples, sossego e alguns dias longe da cidade. Agora, há hotéis a transformar essa experiência numa proposta de luxo, sem retirar da equação as hortas, os animais ou os produtos que saem diretamente da terra.

O agriturismo de luxo está a ganhar espaço na hotelaria, sobretudo na Europa, com propriedades que combinam o conforto de um hotel sofisticado com quintas em funcionamento. Em alguns casos, os hóspedes podem participar em workshops, conhecer os animais, acompanhar o trabalho agrícola ou simplesmente provar à mesa aquilo que foi produzido a poucos metros do quarto.

A tendência foi recentemente destacada pela Travel + Leisure, que aponta vários exemplos de hotéis novos e propriedades que estão a apostar neste modelo. A diferença em relação ao turismo rural tradicional está precisamente na experiência: já não basta recuperar uma casa no campo e rodeá-la de natureza. A agricultura e a produção local tornam-se parte da própria estadia.

Das quintas suecas aos campos japoneses

Um dos exemplos mais recentes fica na ilha de Gotland, na Suécia. O Sibbjäns abriu este ano com 22 quartos integrados numa quinta regenerativa onde vivem ovelhas, galinhas, cavalos e porcos.

A experiência rural não implica, contudo, abdicar de alguns luxos. A propriedade tem sauna a lenha, aulas de yoga e um ginásio ao ar livre, juntando a vida no campo a elementos que facilmente encontraríamos num retiro de bem-estar.

Na Suíça, a ideia assume outra forma. No Château de Raymontpierre, uma propriedade com apenas 14 quartos, são cultivados trigo e espelta que depois servem para preparar o pão e as massas consumidos no próprio alojamento.

Já na Lituânia, o Sleepy Horse ocupa um antigo estábulo recuperado e tem 15 quartos. Na mesma propriedade encontra-se o Red Brick, restaurante distinguido com uma Estrela Verde Michelin, cuja cozinha aposta em ingredientes hiperlocais, cultivados ou recolhidos nos cerca de 700 hectares da quinta.

O conceito não se limita à Europa. No norte do Japão abriu, em abril, o Azuma Farm Koiwai, instalado numa quinta leiteira com 135 anos na província de Iwate. O projeto tem 24 quartos distribuídos por uma área de floresta com cerca de oito hectares e está ligado a Adrian Zecha, fundador da cadeia de hotéis de luxo Aman.

A ligação à região também chega à mesa. Os restaurantes recorrem a ingredientes como carne de Iwate, peixe e marisco locais e vegetais e queijos produzidos na Koiwai Farm. Há ainda saunas, passeios pela natureza e experiências com artesãos locais.

Em Inglaterra, o Heckfield Place, em Hampshire, é outro dos projetos apontados como exemplo desta transformação. A propriedade, aberta em 2018 depois de uma renovação que demorou 16 anos, organiza experiências ligadas à produção alimentar, incluindo workshops de fermentação e conservação.

Até grupos hoteleiros tradicionalmente associados às cidades estão a olhar para o campo. O Experimental Group, conhecido pelos hotéis e bares urbanos, reabriu em 2023 o Cowley Manor, nos Cotswolds, Reino Unido, uma propriedade histórica com 36 quartos rodeada por cerca de 22 hectares de jardins e espaços verdes.

O fenómeno acompanha uma transformação mais ampla na forma como alguns viajantes procuram o campo. Na Toscânia, por exemplo, a Travel + Leisure identifica uma evolução dos antigos agriturismi para propriedades que mantêm a ligação à agricultura e às comunidades locais, mas acrescentam serviço e comodidades associados à hotelaria de luxo.

Isso significa que colher ingredientes, conhecer os animais ou perceber de onde vem aquilo que aparece no prato já não é necessariamente o oposto de umas férias sofisticadas. Em alguns destes alojamentos, é precisamente essa proximidade com a terra que passou a ser vendida como luxo.

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