No coração do Chiado, o Isabella é um restaurante onde a cozinha contemporânea portuguesa se cruza com a história do edifício que o acolhe. Situado no Chiado Flora Apartments, nasceu para dar apoio aos dez quartos do hotel, mas rapidamente conquistou identidade própria e abriu as portas à cidade. 

É logo ao atravessar a entrada que percebemos que a atenção ao detalhe começa muito antes de chegar à mesa. O restaurante ocupa um edifício pombalino cuidadosamente recuperado, onde grande parte do mobiliário original foi restaurado pelo proprietário Ricardo Flora.

O nome do restaurante nasce da história da família de Ricardo Flora, arquiteto de ascendência italiana. Isabella era a sua tetravó e uma das primeiras proprietárias deste edifício. A escolha foi, acima de tudo, uma forma de lhe prestar homenagem, coincidindo ainda com a presença de várias “Isabéis” na vida do arquiteto, entre elas a mulher e a filha.

Na cozinha está o chef Ricardo Leite, formado no Le Cordon Bleu, em Londres. A sua cozinha inspira-se nas memórias da infância em Trás-os-Montes e na relação direta com o produto: “Eu cresci a saber o que é um tomate, o que é uma cebola, o que é uma batata. Uma cebola não tem de ser acre. Eu comia cebolas à dentada porque eram muito doces. Lembro-me perfeitamente como se fosse ontem”, recorda o chef.

Chef Ricardo Leite

Para abrir a refeição, pedimos dois mocktails: o Green Groove (10€), uma mistura de chás, lima e manjericão, muito aromática e refrescante, com um perfil vegetal e cítrico, e o Just Berries, preparado com morango, arando, uma mistura de infusões e limão, que lhe conferem um toque frutado e herbal (8€).

Embora estas bebidas fossem exatamente o que estávamos à procura para começar, a carta de vinhos quase nos fez mudar de ideias: um dos grandes cartões de visita do Isabella é a impressionante carta com 208 referências de vinho servidas a copo. Uma aposta única que convida a criar harmonizações diferentes ao longo da refeição. Como resume o chef: “Hoje em dia, com a tecnologia, conseguimos garantir que os vinhos ficam sempre bem guardados, não alteram praticamente nada, e decidimos apostar numa verticalidade brutal a nível das referências nacionais e internacionais.”

O almoço começou com o couvert (9€), o “prato favorito” do chef. Segundo o próprio, o “pão é um ato de amor” e umas das nossas maiores riquezas enquanto portugueses. O pão de massa mãe de trigos nacionais é acompanhado por manteiga noisette com pó de cebola caramelizada, manteiga de ovelha fumada e um azeite extra virgem BIO e é o início perfeito para abrir o apetite para o que está por vir.

Todos os momentos da refeição, do couvert ao café, são servidos em peças de cerâmica únicas e feitas por artistas portugueses, conferindo um toque de único a cada etapa.

De entrada, provamos a tartelete de tártaro de novilho com alho negro e gema fumada (16€). O tártaro de novilho chega servido numa delicada tartelete estaladiça, que contrasta com a textura macia da carne. O creme de alho negro acrescenta profundidade e um ligeiro toque adocicado, enquanto a gema fumada ralada na hora liga todos os sabores e dá riqueza ao conjunto.

Seguiu-se a courgette da estação com creme de roquefort, pickle de maçã e nozes (14€), um prato que mostra bem a aposta do chef no produto da época. A courgette é o ponto de partida, mas é o contraste entre a intensidade do roquefort, a acidez da maçã em pickle e a textura crocante das nozes que torna esta entrada interessante. O resultado é fresco, leve e bastante equilibrado.

Jus de legumes, creme de roquefort, noz pecan, alho selvagem e gema cremosa

À medida que a refeição avança, torna-se claro que o cuidado colocado na cozinha reflete-se também no serviço. É cuidado, próximo e atento, mas sem formalismos desnecessários, procurando acompanhar o ritmo da refeição sem excessos. Como explica o chef Ricardo Leite, a equipa procura prestar “um serviço atencioso, mas de uma forma descontraída. Aliás, até o próprio outfit é um bocadinho explicativo nesse sentido. É uma t-shirt, um blazer e umas calças mais ou menos largas. Ténis, o mais descontraído possível, para que vocês, clientes, não se sintam muito observados nem muito restritos em movimentos.”

Para os pratos principais, começamos com a verdadeira estrela da refeição: rigatoni caseiro com peixe de linha, gamba rosa, mexilhão e molho de caldeirada (30€). A inspiração é a clássica caldeirada, rica em tomate, peixe e marisco, mas reinterpretada com um rigatoni fresco feito na casa, que absorve perfeitamente o molho. O resultado é uma versão mais contemporânea de um prato enraizado na memória gastronómica portuguesa, que promete convencer mesmo os mais céticos. O próprio chef admitiu que este é um dos pratos que mais o tem surpreendido, precisamente pela forma como desperta memórias a quem o prova.

Tanto que, embora o Isabella privilegie uma cozinha sazonal e assente no produto da época, com a intenção de mudar a carta a cada estação, o chef admite manter a caldeirada durante mais tempo, adaptando apenas o peixe. Na nossa visita, foi servido com cherne, mas, na próxima, poderá ser preparada com uma espécie diferente, sem nunca perder a essência.

Continuamos com o lombo de novilho maturado com topinambur, pickle de cebola e alcaparras, molho bordalês e pimenta verde (35€). A carne chega cozinhada no ponto, extremamente tenra e suculenta. O puré de topinambur acrescenta uma nota ligeiramente adocicada e terrosa, enquanto o molho bordalês, enriquecido com pimenta verde, dá profundidade sem se sobrepor ao sabor do novilho.

Lombo de novilho maturado, com topinambur, pickle cebola alcaparras, molho bordalês e pimenta verde

Finalmente, chegando às sobremesas, experimentamos o morango, sabugueiro e suspiro (8€). Os morangos, já a despedirem-se da estação, assumem o protagonismo, equilibrados pelas notas delicadas e florais do sabugueiro e pela leveza crocante do suspiro. É uma proposta mais leve para terminar a refeição. Segundo o chef Ricardo Leite, a intenção foi criar um equilíbrio entre o doce, ácido e amargo.

A segunda sobremesa que provamos foi o chocolate, topinambur, toffee de alho negro, shiso e bergamota (9€). O chocolate serve de base a uma combinação pouco habitual, onde o toffee de alho negro acrescenta notas caramelizadas e umami, o topinambur traz um lado mais terroso, o shiso oferece frescura herbácea e a bergamota equilibra tudo com um toque cítrico. O resultado é complexo, mas harmonioso: ideal para terminar a refeição.

Chocolate, topinambur, toffe de alho negro, shiso, bergamota

Numa cozinha técnica mas acessível, onde o produto assume o papel principal e a decoração única e o serviço atento se juntam para completar a experiência, o Isabella consegue reinterpretar a tradição portuguesa sem nunca perder a essência. Está aberto de terça a domingo, das 12h00 às 00h00, mas em breve servirá almoço e jantar todos os dias.

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