Há um novo endereço em Santos que merece ser descoberto sem pressa e, idealmente, com fome. O Faminto chegou a Lisboa este mês com uma proposta clara e pouco comum na cidade: colocar a parrilla, uma grelha de inspiração sul-americana, no centro da experiência e deixar que o fogo fale por si. O resultado é um restaurante onde a simplicidade é levada a sério e onde cada prato parece pensado para partilhar.
O espaço acompanha essa intenção. Intimista e acolhedor, com luz baixa e velas a marcar o ritmo da refeição, divide-se em duas salas distintas. Numa delas, onde ficámos, a cozinha aberta capta imediatamente a atenção. É impossível ignorar o crepitar da grelha, os movimentos precisos da equipa e o aroma que se instala à medida que a noite avança. Há uma sensação de conforto quase instintiva, como se estivéssemos entre amigos, mas com um nível de execução que não deixa margem para distrações.
A experiência começa de forma simples, mas bem afinada. O couvert traz pão de massa mãe , manteiga e azeitonas (3€ por pessoa), o tipo de trio que se prolonga naturalmente enquanto se espera pelo resto. Logo depois, chegam os croquetes de carbonara (3,5€ duas unidades) com gema trufada, um dos primeiros momentos memoráveis da refeição. Crocantes por fora, cremosos por dentro, com a riqueza da gema a envolver tudo num equilíbrio indulgente, mas nada excessivo.



O tártaro de vaca velha (16€) confirma a aposta na qualidade da matéria-prima. Fresco, bem temperado e com textura cuidada, é daqueles pratos que se destacam pela precisão e não pela exuberância. Já os chipirones a la parrilla (17€), servidos com manteiga e um toque de malagueta, trazem o lado mais direto da cozinha ao fogo. Tenros, ligeiramente tostados, com um equilíbrio certo entre o mar e o calor da grelha.
Nos pratos principais, o discurso mantém-se consistente. O arroz de forno com chouriço e barriga de porco preto (12€) surge reconfortante, com sabor profundo e aquele lado caseiro que nunca sai de moda. Ao lado, as cenouras assadas com especiarias e iogurte (6,5€) – que incluíam tangerina e amêndoa crocante – cumprem um papel essencial, trazendo frescura e textura a uma refeição dominada por sabores mais intensos.
Mas é na carne que o Faminto afirma verdadeiramente a sua identidade. O lomo bajo com 45 dias de maturação (98€/kg) chega à mesa no ponto certo, suculento, com gordura bem trabalhada e um sabor profundo que só o tempo e o fogo conseguem dar.



Para terminar, a Bola de Berlim Faminto (7€) fecha a refeição com um toque inesperado. Recheada com doce de leite e creme de baunilha, é indulgente sem ser pesada, e tem aquele lado familiar reinterpretado que funciona sempre bem.
A carta de bebidas acompanha o nível da cozinha, com uma seleção de vinhos bem completa e pensada para harmonizar com a intensidade dos pratos. Ainda assim, optámos por clássicos de bar: um Old Fashioned (12€) e um Old Cuban (14€), preparado com Rum Santísima Trinidad 3 Anos, champanhe ou espumante premium, sumo de lima fresco e folhas de hortelã. Ambos equilibrados, frescos e à altura da experiência.
Além da cozinha, há um serviço atento, próximo e descontraído, sem nunca perder o rigor. Numa semana de abertura, tudo fluiu com naturalidade, o que diz muito sobre a solidez do conceito.

Para quem quiser explorar ainda mais a carta, há outros destaques que reforçam a identidade da casa, como a entraña (22€), o asado de tira (28€) ou o chuletón com 45 dias de maturação (98€/kg). Há também espaço para opções fora da carne, como a polenta cremosa com cogumelos assados e parmesão DOP (14€) ou o bitoque de atum do Algarve com ovo a cavalo (34€), mostrando que o conceito é mais versátil do que à primeira vista pode parecer.
No Faminto, cerca de 80% da carta passa pelo fogo, mas a verdadeira força do restaurante está na forma como transforma esse elemento primitivo numa linguagem contemporânea. É um lugar onde se vai para comer bem, mas também para ficar, conversar e voltar. Porque há espaços que não se esgotam numa visita e este é claramente um deles.


































