Há portas em Lisboa que não se abrem por acaso. Na Rua da Boavista, perto do Cais do Sodré, tudo começa com uma porta azul discreta, quase indistinguível para quem passa. Não há montras nem sinais evidentes. É preciso tocar à campainha. E esperar.

Do outro lado, é Vasco Gonçalves quem nos recebe, com uma simpatia imediata que quebra qualquer formalidade. É ele o anfitrião e o rosto por detrás da experiência do Alma54, um wine bar inaugurado há cerca de um mês, escondido no interior do 54 São Paulo Boutique Hotel.

Lá dentro, o ritmo muda. O espaço divide-se entre uma sala acolhedora, com lareira acesa nas noites mais frescas, e um jardim inesperado, onde o som da água e o verde envolvente nos fazem esquecer, por momentos, do rebuliço da cidade.

Foi neste cenário que nos sentámos para a prova “Women in Wine”. O conceito é simples, mas pouco comum. Todos os vinhos apresentados são produzidos por mulheres, dando palco a enólogas e produtoras nacionais, num registo descontraído que se afasta das provas mais técnicas e formais.

Conduzida pelo próprio Vasco, a experiência decorre sem rigidez. Cada vinho chega com uma explicação breve, clara e acessível, suficiente para contextualizar sem sobrecarregar. Há, no entanto, um detalhe subtil que faz diferença. Debaixo de cada copo, surge o número correspondente na carta, pensado para que, no final, seja fácil voltar a pedir aquele que mais marcou.

A prova custa 27€ por pessoa, ou 45€ para duas pessoas, e inclui três vinhos harmonizados com uma tábua de queijos portugueses, pensada para acompanhar cada momento.

O percurso começa no Minho, com um espumante da Quinta de Santiago, assinado por Joana Santiago. Produzido a partir de Alvarinho, apresenta notas florais, bolha fina e uma frescura persistente. Acompanhado por queijo de Nisa, mais firme e ligeiramente salgado, cria um equilíbrio onde a acidez do vinho ganha profundidade e prolonga o final.

Segue-se o “Procura na Ânfora”, de Susana Esteban, no Alentejo. Um branco fermentado em ânfora, com textura envolvente e notas terrosas, quase como manteiga. Aqui, o queijo de Évora entra com mais intensidade e salinidade, reforçando o caráter mineral do vinho e criando uma combinação mais estruturada e densa.

Para terminar, um tinto de Lisboa, o Las Vedras Pero Negro, de Sónia Raposo e Pedro Marques. Um vinho de baixa intervenção, fresco e com perfil atlântico, onde se destacam os frutos silvestres e uma rusticidade elegante. O pairing faz-se com um queijo de cabra do Brejo com piri-piri. A gordura suaviza os taninos, enquanto o picante eleva a fruta e traz uma nova dimensão ao conjunto.

Mais do que a prova em si, é a forma como tudo é apresentado que marca a experiência. Sem discursos técnicos excessivos, sem formalidades, apenas histórias, contexto e uma abordagem que aproxima o vinho de quem o prova.

Além da opção “Women in Wine”, o Alma54 propõe também uma prova dedicada a vinhos fortificados, com Porto e Madeira de 10 anos e um Carcavelos Villa Oeiras. O formato mantém-se, com o mesmo valor e a mesma lógica de harmonização.

A carta conta com cerca de 38 referências nacionais, privilegiando produtores independentes, vinhos de baixa intervenção e perfis menos óbvios. Muitos estão disponíveis a copo, o que permite explorar a carta sem compromisso e ao ritmo de cada visita.

Artigo anteriorHotel de luxo na Arrábida criou uma experiência secreta (e não vai saber tudo antes de chegar)
Próximo artigoJá pode voltar a um dos trilhos mais incríveis da Madeira (mas vai pagar mais por isso)

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor coloque aqui o seu comentário
Por favor coloque o seu nome aqui