Dragões, criaturas mágicas, reinos escondidos e romances capazes de desafiar séculos de rivalidade. Os livros de fantasia transportam os leitores para universos que parecem existir apenas na imaginação dos autores, mas alguns dos seus cenários têm uma origem bem real.
Nos últimos anos, o romantasy, género que combina fantasia e romance, conquistou as listas de livros mais vendidos e tornou-se um fenómeno nas redes sociais, sobretudo no BookTok. Séries como A Court of Thorns and Roses, de Sarah J. Maas, e Fourth Wing, de Rebecca Yarros, ajudaram a popularizar histórias onde as relações amorosas se desenvolvem entre guerras, magia e mundos imaginários.
Mas de onde vêm as paisagens que servem de palco a estas aventuras? A revista Condé Nast Traveller reuniu alguns dos lugares que inspiraram autores de fantasia e romantasy. Da natureza selvagem da Escócia às florestas cobertas de neve, passando pelas paisagens do Gana, estes são cinco exemplos de como uma viagem, uma memória ou até um passeio podem acabar nas páginas de um livro.
1. Ilha de Skye, Escócia: A Court of Thorns and Roses, de Sarah J. Maas

Quem já leu a saga A Court of Thorns and Roses, também conhecida pela sigla ACOTAR, sabe que Sarah J. Maas criou um universo onde convivem cortes feéricas, criaturas sobrenaturais e territórios com características muito distintas. Parte desse mundo nasceu de uma viagem à Escócia.
Numa entrevista à Waterstones, em 2016, a escritora contou que ela e o marido passaram alguns dias na ilha de Skye, nas Terras Altas escocesas. A paisagem tornou-se uma das inspirações para a prisão apresentada em A Court of Mist and Fury.
As montanhas escarpadas, os vales e o isolamento da ilha fizeram-na imaginar um lugar onde poderiam estar aprisionados monstros. A autora explicou que viajar tem uma influência constante na sua escrita e que, de alguma forma, todos os lugares que conhece acabam por alimentar a sua imaginação.
Skye é conhecida pelas formações rochosas de Old Man of Storr, pelas piscinas naturais de Fairy Pools e pelas paisagens montanhosas de Quiraing. É um destino que parece feito para uma história de fantasia, embora não tenha sido o único ponto de partida para o universo de Maas. A escritora também recorre a mitologias de diferentes regiões, incluindo tradições inglesas, irlandesas e hindus. Numa entrevista, em 2015, explicou que não queria limitar as suas histórias a uma única cultura, preferindo procurar inspiração em diferentes partes do mundo.
2. Nova Zelândia e Colorado: Fourth Wing, de Rebecca Yarros

A relação de Rebecca Yarros com os lugares que marcaram a sua vida é diferente. A autora de Fourth Wing, a saga que acompanha Violet Sorrengail numa academia militar para cavaleiros de dragões, não identificou um destino específico como inspiração direta para o cenário dos livros.
Ainda assim, há duas influências importantes na construção do seu universo: o fascínio pela fantasia e a experiência pessoal com o ambiente militar.
Yarros cresceu a ler obras de J. R. R. Tolkien e, durante uma digressão literária pela Nova Zelândia, fez questão de visitar Hobbiton, o cenário cinematográfico da aldeia dos hobbits em O Senhor dos Anéis e O Hobbit.
Acompanhada pela irmã, aproveitou para tirar fotografias junto às pequenas portas redondas das casas e explorar um dos lugares mais reconhecíveis do universo criado por Tolkien
Mas foi sobretudo a sua história familiar que influenciou a dimensão militar de Fourth Wing. Filha de dois militares, passou a infância a mudar de base em base. Viveu na Alemanha quando caiu o Muro de Berlim e mudou-se para o Colorado, nos Estados Unidos, aos 12 anos.
O marido também teve uma carreira militar, da qual se reformou em 2019. Segundo a escritora, esta experiência está presente em tudo o que escreve, independentemente do género literário.
Assim, embora não exista uma paisagem real identificada como modelo para Basgiath, a academia militar dos livros, a organização, a disciplina e as relações entre personagens têm raízes num contexto que a autora conhece desde criança.
3. Abu Dhabi e as paisagens nevadas: Quicksilver, de Callie Hart

Deserto de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Créditos: Jakub David/Unsplash
Em Quicksilver, de Callie Hart, os cenários são tão importantes como a relação entre as personagens. A história começa num ambiente desértico, onde a água é escassa, antes de transportar os leitores para territórios marcados pelo frio e por extensas florestas. Ambas as paisagens têm ligações a experiências reais da escritora.
Numa entrevista em 2025, Hart revelou que uma estadia em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, influenciou a criação da cidade desértica apresentada no início do livro. O calor, a aridez e a sensação de estar num ambiente exigente deixaram-lhe uma impressão duradoura.
Já os cenários de inverno nasceram das temporadas que passou a viver em estâncias de esqui. Hart contou que sempre gostou de estar ao ar livre e de caminhar na neve, experiências que influenciaram as florestas geladas onde decorre uma parte significativa da narrativa.
A Escócia é outra das suas referências. A escritora viveu no país há vários anos e recorda especialmente os passeios pelas Highlands, rodeada de montanhas e natureza.
Segundo a autora, a Escócia continua a ser um dos seus países preferidos e uma fonte recorrente de inspiração para a escrita.
4. Gana: Faebound, de Saara El-Arifi

Em Faebound, Saara El-Arifi constrói um universo de elfos, fadas e criaturas mágicas que também reflete a sua ligação à cultura da África Ocidental.
A escritora tem ascendência ganesa e sudanesa, nasceu em Abu Dhabi e viveu nos Emirados Árabes Unidos antes de se mudar para o Reino Unido. Estudou ainda Estudos Africanos, percurso que contribui para a diversidade de referências presentes na sua obra.
Uma das inspirações mais concretas surgiu durante a infância, numa viagem ao Gana. No Manchester Literature Festival, em 2025, El-Arifi contou que, durante uma caminhada, alguém lhe disse que havia um leopardo a observá-los. A memória desse momento acabaria por influenciar a aparência de Obeah, uma criatura de grandes dimensões e características felinas que surge em Faebound.
O nome da criatura também está ligado a referências culturais da África Ocidental, segundo explicou a autora.
Neste caso, não foi um monumento ou uma paisagem específica que passou para o livro, mas a combinação entre uma memória de infância, a natureza e as tradições culturais que fazem parte da identidade da escritora.
5. Caxemira e Irlanda do Norte: Hekate, de Nikita Gill

Nem todas as viagens que inspiram livros de fantasia estão associadas a paisagens idílicas. Para Nikita Gill, autora de Hekate, as experiências de infância na Caxemira e na Irlanda do Norte ajudaram a construir a dimensão emocional da sua história.
O romance reimagina a vida de Hécate, deusa grega associada às encruzilhadas, à magia e à feitiçaria, e integra a série Goddesses of the Underworld, que prossegue com Styx.
Numa entrevista publicada em maio de 2026, Gill explicou que cresceu em lugares marcados por uma forte presença militar e pelas consequências de conflitos. Essas memórias influenciaram a forma como imaginou uma personagem divina que nasce no final de uma guerra e enfrenta a perda dos pais, feitos prisioneiros.
A autora procurou explorar o impacto da guerra através da perspetiva de uma criança, mesmo quando essa criança é uma deusa.
A origem da história também tem um lado quase fantástico. Gill contou que a ideia para Hekate surgiu num sonho, em 2019. Pouco depois, pegou num caderno e saiu para caminhar por uma floresta, acabando por chegar a um antigo cemitério. Foi durante esse passeio, rodeada de árvores e sepulturas, que a narrativa começou a ganhar forma.


































