Paulo Andrade - autor da viagem

São Tomé e Príncipe é uma viagem ao essencial da vida. Chegados ao aeroporto de São Tomé, o turista é imediatamente recebido pelo ar quente e húmido, com um leve odor a queimadas. É esta a primeira sensação que se tem, ainda na pista, ao desembarcar do avião. Dirigimo-nos a pé para o terminal do aeroporto, e no controlo de fronteiras somos recebidos por jovens autoridades, que com ar composto verificam a documentação. É o momento de passar para uma outra realidade. Basta um bom dia por parte do viajante, para que de imediato um ar fechado dê lugar a um rasgado sorriso. Recolhida a bagagem numa exígua sala, saímos para o exterior onde somos recebidos por um mar de pessoas, aqui sente-se a palavra “saudade” ao perceber o que sentem todos aqueles que ansiosamente aguardam pelos seus familiares.

São Tomé – Lagoa Azul

Para os mais atentos, é possível compreender que em São Tomé ainda existe a tradição de ir ver o avião a chegar. E não se trata só de crianças junto às redes do aeroporto, que na sua imaginação tentam perceber o que existe para além do horizonte, mas também adultos que se perguntam a si próprios a razão do turista querer visitar o seu país. Visitar São Tomé e Príncipe é um contínuo processo de aprendizagem, há que manter um espírito aberto, finalmente chegámos ao país do “leve leve”.

Recordo-me ainda dos tempos em que o turista Português descobriu São Tomé, quando ainda nem se falava da ilha do Príncipe. Tudo aconteceu quando uma companhia aérea privada decidiu apostar em novos destinos, e abriu a rota Lisboa – São Tomé com 3 voos semanais. Logo surgiu um novo destino tropical, amplamente divulgado como paraíso do sol e praia. Tal não pode estar mais errado, o sol e a praia são o complemento ao que se pode experienciar em São Tomé. Comprar um pacote de férias com 7 noites de alojamento em pensão completa é a forma errada de vivenciar o destino. São Tomé e Príncipe é um destino imersivo e o embate cultural pode ser difícil de digerir no dia da chegada.

O país depende em quase tudo de importações e um dos desafios que se coloca a um turista responsável; conseguirmos deixar para trás o consumo exacerbado e compreender como o São Tomense recolhe da natureza quase tudo aquilo que precisa à sua sobrevivência. O mar é rico, os terrenos produtivos, haja vontade de trabalhar. 

Todos os dias dezenas de mulheres descem à cidade para vender o resultado do seu trabalho agrícola, que muitas vezes é comprado por comerciantes locais que os revendem. As cores, os cheiros, uma microeconomia a funcionar numa ilha em que quase falta tudo. Deve o viajante perceber que a realidade aqui é outra, e que apesar das aparentes dificuldades a sociedade São Tomense é uma sociedade organizada, e muitos dos jovens já tiveram a possibilidade de estudar fora do país e que por opção decidiram regressar para dar o seu contributo ao desenvolvimento de são Tomé e Príncipe. 

Escola em São Tomé

Nos últimos anos o turismo veio criar novas oportunidades de trabalho para os mais jovens, mas que derivado da pandemia se tiveram que reinventar. O São Tomense possui iniciativa, ambiciona chegar mais longe e confrontado pela perda do trabalho no turismo, derivado ao encerramento dos hotéis, encontrou novas formas de vida através de pequenos negócios como padarias ou explorações aviárias. Com o retomar de uma certa normalidade, o turista deve cumprir com o seu papel, e sempre que possível tomar as suas refeições em restaurantes locais. A oferta existe, sugiro a visita ao parque da cidade onde para além da oferta gastronómica nos vários restaurantes, também é possível encontrar o que de melhor se produz na ilha em termos de artesanato.

Artesanato local

Está na hora de explorar o país. Na ilha de São Tomé existem 3 estradas principais: norte, sul e interior. A estrada para o interior e para o norte fazem-se cada uma num dia. O ideal é alugar uma viatura com condutor que aliás sai muito em conta, e partir à descoberta da ilha. Recordo que estamos no equador onde amanhece muito cedo. Para além da visita aos lugares de interesse, o motorista vai contar histórias, partilhar opinião pessoal sobre a política do país ou mesmo contar sobre a situação familiar. Recordo-me de uma situação da qual me arrependo. Após alguns dias de passeio com um guia fui convidado a visitar a sua casa. Contava-me que tinha 2 irmãs e que elas tinham curiosidade em conhecer-me. Recusei amavelmente o convite para evitar situações potencialmente inconvenientes, e só mais tarde compreendi que o convite visava agradecer um presente que eu havia dado ao irmão para melhor desempenhar a sua função de guia. 

Em São Tomé e Príncipe devemos manter sempre um certo espírito de aventura, variadíssimas vezes arrependo-me de tudo aquilo que por lá deixei por fazer. 

Portanto, reserve tempo para percorrer ambas as ilhas. Em São Tomé a estrada para sul é ideal para conhecer a história das Roças e das diferentes comunidades que foram povoando a ilha. Existem atualmente roças fora da cidade e que foram reconvertidas para alojamento turístico, sem grandes luxos mas com todo o conforto e nas quais somos transportados para tempos de outrora. Uma das melhores recordações que tenho da primeira noite em São Tomé foi na roça de São João de Angolares. Uma trovoada, amigos à volta da mesa, música e danças tradicionais, uma noite mágica acompanha por aquele cheiro a terra quente.

São Tomé é isto mesmo, partir à aventura, sem planos e com tempo para poder voltar a viver. Outra curiosidade é a falta de sinalização nas estradas, que ajuda a aproximar os visitantes da população. Uma curiosidade, ao parar numa roça as crianças por brincadeira costumam pedir doce doce ao viajante. Saiba que não é por necessidade, mas por divertimento. Este costume altera-se na ilha do Príncipe, em que as crianças pedem lapiseira e neste caso é algo útil que os vai ajudar na escola. Mas na verdade, o que querem é estabelecer contato com quem visita São Tomé e Príncipe. 

É de enternecer ver as crianças, fardadas a caminho da escola pela beira da estrada. A escolaridade é obrigatória e levada muito a sério. Mesmo tratando-se de um esforço financeiro para os pais já que o fardamento é obrigatório e por norma em São Tomé tem-se muitos filhos. Experimente dizer um olá, ou “tchau é” a uma criança e receba como que por magia um sorriso autêntico. Em qualquer parte do mundo diz-se que as crianças são bonitas, mas em São Tomé e Príncipe existem duas certezas absolutas: não existem crianças feias neste país, e uma criança nunca está sozinha. Se um dia quiser oferecer algo a uma criança, de certeza que como por magia vão aparecer muitas mais, por isso o correto será entregar o que quiser doar diretamente a um professor na escola, que conseguirá identificar os alunos com maiores necessidades.

Outras sugestões para os passeios por São Tomé e Príncipe é que vai poder comprar côcos para beber, um ideal substituto à água engarrafada. É importante não pagar com moeda estrangeira pois os bancos só aceitam trocar notas. Também no centro da ilha, a caminho de Monte Café poderá comprar framboesas envoltas em folhas de árvore. São jovens microempreendedores, e que nos mostram como o turismo gera oportunidades através de pequenas iniciativas, longe dos grandes grupos económicos que raramente geram riqueza nas populações locais. E isto leva-me a falar sobre o alojamento. Em termos hoteleiros, São Tomé e Príncipe já dispõe de oferta para diferentes níveis de clientes, desde casas particulares a hotéis de elevada qualidade, sendo que é na ilha do Príncipe que encontramos as unidades mais exclusivas. A minha sugestão é combinar diferentes opções de alojamento para vivenciar as mais diferentes experiências.

São Tomé e Príncipe é um dos países mais pequenos, mas também um dos que possui maior biodiversidade no mundo. Acreditando que o tempo é o novo luxo das nossas vidas, parta à descoberta deste arquipélago e seja muito feliz.

Mapa de São Tomé

Paulo Andrade – profissional da indústria do turismo. Para ele viajar é agradecer tudo o que este mundo tem de melhor para nos oferecer.

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