Arroz sem prato é um dos pratos tradicionais vegan d'A Minha Avó.
Arroz sem prato é um dos pratos tradicionais vegan d'A Minha Avó.

Na passada sexta-feira, dia 13, o Vou Sair foi conhecer o restaurante vegan A Minha Avó, que transforma as receitas tradicionais da gastronomia portuguesa em pratos 100% vegetais. Situado no coração de Lisboa, o A Minha Avó reinventa os clássicos sem perder a essência aconchegante da comida caseira da avó, desde os croquetes de “carne” até ao arroz sem pato, sem esquecer o icónico bitoque com “ovo”.

Por detrás do projeto estão Gustavo Grilo e Pedro Mourarias. São amigos há mais de 11 anos e sempre partilharam o sonho de abrir um projeto em conjunto. Unidos pelo gosto pela comida, seguiram áreas diferentes sem ainda saber aquilo que o futuro lhes reservava: Gustavo é licenciado em filosofia e tem um mestrado em gestão, enquanto Pedro é programador de jogos.

Ambos adotaram uma dieta vegetariana em 2018 – “sem combinarmos”, sublinha Gustavo – e rapidamente sentiram a estranheza entre os familiares que não estavam habituados a este tipo de alimentação. Até que, numa determinada ceia de Natal, a mãe do Gustavo preparou dois pratos vegetais – um “bacalhau” com natas e um arroz sem pato –, que todos os avós, tios e primos devoraram sem julgamentos.

Anos mais tarde, a ideia de abrir um restaurante desenvolveu-se – embora não tivessem qualquer experiência prévia no ramo – e o A Minha Avó nasceu durante a pandemia. “Apesar de existirem bons restaurantes vegan em Lisboa, não havia nenhum dedicado apenas à tradição portuguesa. Queríamos desmitificar o veganismo para os avós, os tios, os pais, para deixarem de estranhar os pratos”, conta Gustavo. “Tivemos vários nomes em cima da mesa, mas a ideia era ser a comida da avó, que é acolhedora, que tem carinho e amor”.

Começaram por apostar num modelo de “dark kitchen”, funcionando apenas em regime de take-away. O sucesso do projeto permitiu a abertura das portas de um espaço físico em julho de 2023. “O projeto tem corrido muito bem. Tivemos a sorte de ser um nicho que, quando a pessoa gosta e se identifica, se torna um fenómeno”, diz Gustavo, que destaca que um ponto a favor do projeto é a curiosidade pelas versões vegan dos pratos tradicionais portugueses.

Croquetes, bitoque e pastel de nata: o menu vegan d’Avó

A nossa visita ao A Minha Avó começou pelos icónicos croquetes de “carne” com maionese picante (5,90€), feitos de soja, tofu e uma pitada de picante, uma entrada “obrigatória” que rivaliza com a sua versão clássica. Provámos também os peixinhos da horta (4,90€) e os estaladiços de “alheira” com molho agridoce (5,50€) – que, surpreendentemente, sabem mesmo a alheira.

Para pratos principais, tivemos oportunidade de experimentar o bife mais português – o bitoque com “ovo” (14,90€), com seitan caseiro e molho de bitoque, acompanhado de batata frita caseira e arroz branco. Considerado o ex libris d’Avó, é “um dos pratos mais desafiantes, senão o mais desafiante” de recriar numa opção vegan, salienta o Gustavo.

Os sabores do arroz sem pato (12,90€) enganaram-nos com a sua parecença ao prato tradicional de carne, ainda que esta opção seja feita com cogumelos Pleurotus, tofu fumado e rodelas de “chouriço”. Ainda provámos a típica portuense francesinha (14,90€), feita com bife de seitan, tofu fumado e chouriço vegetal, que se revelou uma versão mais leve do que a original, mas igualmente saborosa.

Por fim, experimentámos o icónico pastel de nata da avó em massa filo e servido com uma bola de gelado caseiro (5,50€) e o bolo de bolacha (4,50€), feito com creme de “manteiga” e leite condensado caseiro – ambos mais do que aprovados.

Veja os pratos tradicionais vegan d’A Minha Avó:

A reinvenção dos clássicos

Atualmente, a equipa do restaurante A Minha Avó conta com cerca de 19 pessoas, sendo a cozinha liderada pelas mãos da chef Carina Monteiro. O menu é um tributo à culinária portuguesa, em que os clássicos são recriados através de técnicas inovadoras e ingredientes de origem vegetal.

“Comecei a focar-me na cozinha durante a pandemia e andei a brincar com os pratos tradicionais”, conta Carina, vegan desde 2017, sobre o seu percurso ligado à cozinha. “Tinha saudades de comer arroz de pato, francesinha e bacalhau com natas”.

Carina Monteiro, que trouxe muitas das receitas que compõem o cardápio, descreve o processo de criação como “tentativa e erro”. “Normalmente, vejo como é que os pratos tradicionais são feitos. Gosto de ver as receitas e trocar os produtos de origem animal por vegetal. Às vezes não sai à primeira, nem à segunda”, realça a chef.

A confecção do “ovo”, por exemplo, é uma obra de arte da cozinha molecular. A clara é feita de uma panqueca de farinha de arroz e bebida de soja, enquanto a gema é um puré de abóbora temperado com sal negro para imitar a textura característica do ovo. O efeito da gema é “uma reação química entre o lactato e o alginato, que é um líquido espesso. Quando o juntamos à esfera da abóbora dentro do alginato, cria uma película à volta”, explica Carina.

Gustavo indica que o processo de criação de um prato pode demorar “uns dois meses” até chegar ao menu, com vários testes e experiências pelo caminho. O fundador acrescenta ainda que, “como não temos o sabor da carne, temos de compensar com muitos condimentos”.

Embora os pratos tradicionais sejam o foco principal, o restaurante também oferece um prato do dia, pensado para diversificar a experiência dos clientes habituais. “Somos quatro pessoas na equipa da manhã e cada uma de nós tem essa responsabilidade um dia por semana, em que trazemos a nossa criatividade para a cozinha da Avó. É muito importante não nos focarmos só nesta comida [tradicional] porque temos clientes que vêm para comer algo diferente todos os dias”, refere Carina.

O menu de almoço está disponível de segunda a sexta-feira, das 12h às 15h, por um valor de 12,90€. Este inclui a sopa do dia, o prato do dia e uma bebida (ice tea ou limonada). Alguns exemplos de antigos pratos do dia são caril katsu, noodles com molho de manteiga de amendoim, massa carbonara, lasanha, brás de legumes, espetadas, tofu à lagareiro (que estará disponível no menu de Natal), sushi bowls e feijoada.

Mais do que veganizar receitas, o restaurante promove práticas sustentáveis em toda a sua operação. A aposta em ingredientes locais, produtos da época e fornecedores nacionais, juntamente com a redução de desperdício – nomeadamente com as sobras aproveitadas para o Prato do Dia –, são alguns dos exemplos adotados. “Só o facto de sermos 100% vegetais já é o nosso maior contributo para a sustentabilidade”, afirma Pedro.

Planos para o futuro

Depois de um início promissor, os fundadores d’A Minha Avó já começam a pensar no próximo capítulo, sem esquecer as suas raízes. “Gostávamos muito de expandir e abrir outro espaço, mas para já é tornar este o melhor possível. Não só melhorar o espaço, mas também o serviço, os pratos e todo o cuidado que temos com os clientes”, adianta Gustavo.

Quanto à expansão do menu, tanto Gustavo e Pedro como a chef Carina partilham a mesma recriação de sonho: frango de churrasco. “Mas não prometemos nada”, acrescentam, afirmando que seria um prato difícil de incluir na carta. Outros pratos na wishlist de Carina são cogumelos à guilho (em vez de gambas), os clássicos bifana e prego, bem como as sobremesas banoffee e leite creme.

Localizado na Avenida António Augusto de Aguiar, o restaurante A Minha Avó está aberto às segundas-feiras, das 19h às 23h, e de terça a domingo, nos horários das 12h às 15h e das 19h às 23h.

Artigo anterior14 alojamentos inspirados na cor tendência de 2025. Sabe qual é?
Próximo artigoLusitanian Ghosts juntam-se à Orquestra Metropolitana de Lisboa para concerto no Tivoli BBVA

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor coloque aqui o seu comentário
Por favor coloque o seu nome aqui