Há um momento muito específico em que percebemos que estamos mesmo em Veneza. É quando, já dentro de um barco, sentimos o cheiro ligeiramente salgado da lagoa, ouvimos o som da água a bater suavemente na madeira e começamos a ver, ao longe, as silhuetas das cúpulas e dos palácios a emergirem do horizonte. Foi aí que tudo começou.

Chegámos ao Aeroporto de Veneza-Marco Polo, no dia 14 de abril, e seguimos diretamente para o cais, onde apanhámos o barco que conecta o aeroporto com Veneza, da empresa Alilaguna. Por 18€, esta é, sem margem para dúvidas, a melhor forma de chegar ao centro. O preço acaba por ser muito semelhante ao de uma combinação entre autocarro e vaporetto, mas a experiência é incomparável. A viagem demora entre 20 a 45 minutos, com várias paragens ao longo da cidade, e funciona quase como uma introdução cinematográfica a Veneza. Não há trânsito, não há confusão, só água, e a sensação de estarmos a entrar num cenário que parece irreal.

Um detalhe importante: em Veneza não há carros, o que significa que, dependendo de onde ficarem, podem ter de caminhar com malas por várias pontes. Viajar com bagagem leve faz toda a diferença.

Um hotel que nos faz abrandar o ritmo

Vista dos quartos do hotel

Instalámo-nos no Eurostars Residenza Cannaregio, no bairro de Cannaregio, uma escolha que rapidamente percebemos ter sido certeira. Longe da agitação constante das zonas mais turísticas, este bairro tem um ritmo mais autêntico, com moradores, pequenas mercearias e restaurantes onde se ouve mais italiano do que inglês. Ao mesmo tempo, está suficientemente bem localizado para chegarmos facilmente aos principais pontos da cidade, seja a pé ou de vaporetto, o principal transporte público de Veneza.

O hotel de 4 estrelas ocupa um antigo mosteiro do século XVI, e isso sente-se em cada detalhe: no claustro silencioso e na forma como o espaço nos faz automaticamente baixar o ritmo. Há uma atmosfera quase contemplativa, rara numa cidade tão visitada. Ficámos numa junior suite distribuída por dois pisos, com sala em baixo e quarto no andar de cima, e rapidamente se tornou o nosso refúgio. A separação dos espaços dá uma sensação de casa – mais do que de quarto de hotel – e o conforto foi essencial depois de dias inteiros a caminhar.

Havia qualquer coisa de reconfortante em regressar ali ao final do dia, tirar os sapatos e ouvir… nada. Veneza pode ser intensa, mas ali encontrámos silêncio. De manhã, descíamos para o pequeno-almoço e planeávamos o dia com calma, entre cafés, fruta e opções mais compostas. O hotel não tem restaurante para outras refeições, mas isso acabou por jogar a nosso favor: obrigou-nos a explorar melhor Cannaregio, que rapidamente se revelou uma das zonas mais interessantes para comer bem e fugir às armadilhas turísticas.

Entre caminhadas e viagens de vaporetto

Veneza faz-se muito bem a pé. É plana, apesar das inúmeras pontes, e a melhor forma de a conhecer é mesmo perdermo-nos sem rumo definido. Ainda assim, habituámo-nos rapidamente ao vaporetto, o sistema de transporte público da cidade, que funciona como um verdadeiro metro flutuante.

Um bilhete simples custa 9,50€, mas percebemos logo que não fazia sentido pensar viagem a viagem. Optámos por um passe de vários dias – há opções de 25€ (1 dia), 45€ (3 dias) e 65€ (7 dias) – e foi das decisões mais práticas que tomámos. Além de facilitar todas as deslocações, permite ver Veneza de uma perspetiva completamente diferente, deslizando pelo Grande Canal entre palácios e igrejas. A linha 1, em particular, é quase um passeio turístico disfarçado de transporte público.

Foi também com o vaporetto que fizemos uma escapadinha até Murano e Burano. Em Murano, pagámos cinco euros e entrámos numa fábrica onde o vidro continua a ser trabalhado de forma artesanal. Uma demonstração quase hipnótica, entre fogo e movimentos precisos. Depois, perdemo-nos pelas ruelas e acabámos a trazer pequenos souvenirs em vidro, desde copos a peças de bijuteria.

Já Burano conquistou-nos imediatamente. As casas pintadas em tons vibrantes parecem saídas de um cenário, mas o que mais nos marcou foi o ambiente tranquilo, quase de aldeia, onde se vive devagar. É o contraste perfeito com a intensidade de Veneza e um passeio obrigatório.

Os clássicos (e os nossos favoritos)

Há sítios onde inevitavelmente acabamos por ir (e ainda bem). A Ponte de Rialto foi uma das primeiras paragens, sempre cheia, sempre impressionante. A vista do topo é das mais bonitas da cidade. Ali ao lado, descobrimos o I Tre Mercati, onde provámos um tiramisù em versão takeaway que comemos sentados junto ao canal, como verdadeiros locais.

Seguimos para a Libreria Acqua Alta. Escondida numa rua discreta, esta livraria é um pequeno caos organizado, onde os livros são guardados em gôndolas e banheiras para escapar às inundações. No pátio, subimos uma escadaria feita de livros antigos e ficámos a olhar para o canal.

Comemos uma pizza take-away na Pizzeria Cip Ciap e seguimos para a Piazza San Marco. A dica é clara: chegar cedo. Visitámos a Basílica de São Marcos e o Palácio Ducal, dois dos espaços mais impressionantes da cidade, tanto pela dimensão como pelo detalhe e pela forma como contam a história de Veneza.

Mas foram os sítios menos óbvios que mais nos surpreenderam. O Palazzo Contarini del Bovolo, escondido entre ruelas, com a sua escadaria em caracol, revelou uma das vistas mais bonitas da cidade. A Ponte dell’Accademia tornou-se o nosso spot favorito ao final do dia, com o sol a refletir-se no Grande Canal. E a Basílica de Santa Maria della Salute, mesmo ali ao lado, impressionou-nos pelos pormenores na fechada e pela escala.

Houve também tempo para parar na Suso Gelatoteca, onde provámos um gelado que justificava perfeitamente a fila: cremoso e impossível de esquecer. Entrou automaticamente para o nosso top 3 de melhores gelados de sempre.

No geral, Veneza vê-se bem em dois dias, com um terceiro dedicado às ilhas. Ainda assim, quatro dias permitem absorver a cidade com outro tempo e descobrir estes detalhes que não vêm nos guias.

A melhor altura para explorar a cidade é cedo de manhã ou ao final do dia. A diferença é enorme: menos pessoas, mais silêncio e uma luz muito mais bonita, especialmente ao pôr do sol. Durante o dia, sobretudo a meio da manhã e da tarde, Veneza enche-se de visitantes que chegam apenas para passar algumas horas, muitos em grupos organizados, o que muda completamente o ritmo da cidade.

Aliás, isso tornou-se tão evidente que a cidade criou uma taxa de acesso para quem visita apenas por um dia. Em 2026, essa taxa aplica-se em datas específicas entre abril e julho, geralmente aos fins de semana e feriados, entre as 8h30 e as 16h. O valor varia entre 5€ (se reservado com antecedência) e 10€ (em cima da hora).

Quem fica alojado na cidade, como foi o nosso caso, não tem de pagar esta taxa, embora tenha de pagar a taxa turística no hotel, normalmente entre 1€ e 5€ por noite.

Uma das formas mais icónicas de explorar a cidade é, claro, num passeio de gôndola. O preço é tabelado na cidade: 90€ por cerca de 30 minutos durante o dia e 110€ à noite, por gôndola (não por pessoa), com capacidade até cinco pessoas. Ou seja, se forem em grupo, o valor divide-se e torna-se mais acessível.

Dica: evitar apanhar gôndolas nas zonas mais óbvias, como San Marco ou Rialto, onde há mais filas, e optar por canais mais tranquilos para uma experiência mais autêntica.

Para quem quer experimentar sem gastar tanto, há uma alternativa pouco conhecida: o traghetto, uma espécie de gôndola partilhada que atravessa o Grande Canal em pontos específicos por cerca de dois euros. Não é tão cénico, mas dá para tirar umas fotografias e para ter a experiência, mesmo que seja só por alguns minutos.

Comer bem (e fugir ao óbvio)

À mesa, tentámos evitar os menus turísticos e procurar sítios mais autênticos. Um dos destaques foi o jantar na Antica Mola, em Cannaregio, onde provámos a clássica pasta nero di seppia com choco, um prato cheio de sabor e muito ligado à tradição local.
Já na Trattoria Bar Pontini, também em Cannaregio, percebemos rapidamente a importância de reservar. O espaço é pequeno, muito concorrido, e serve pratos de peixe e massa que valem mesmo a pena.

Recomendamos ainda o risotto do Regina Sconta, perto de Rialto. Cremoso, rico e feito na hora, o que significa esperar cerca de 25 minutos e, quase sempre, ser obrigado a pedir pelo menos duas doses. Mas compensa.

Pelo meio, fomos também descobrindo o ritual dos cicchetti – pequenas tapas venezianas servidas em bares locais – perfeitas para petiscar ao final da tarde com um spritz na mão.

Nota: Em praticamente todos os restaurantes em Veneza, é cobrado o chamado coperto, uma taxa fixa por pessoa (normalmente entre 2€ e 5€) que cobre o serviço de mesa e o próprio “direito” a sentar-se. Não é uma gorjeta, nem é opcional, e vem sempre indicada no menu (geralmente em letra pequena).

Outra coisa importante: tal como noutras cidades turísticas, muitos restaurantes mais voltados para visitantes têm menus à porta com fotografias e empregados a chamar clientes. Regra geral, são para evitar. Os melhores sítios são quase sempre os mais discretos.

Há pequenos detalhes práticos que fazem diferença. A água da torneira é potável e existem várias fontes públicas onde podem encher garrafas, algo que usamos várias vezes ao longo do dia. Já as casas de banho públicas são pagas (normalmente cerca de 1,50€), por isso convém aproveitar cafés e restaurantes.

Quando ir a Veneza?

Se tivermos de escolher, abril pareceu-nos o timing perfeito. Apanhámos dias de sol, temperaturas agradáveis e uma cidade muito mais respirável do que imaginamos que seja no pico do verão. Conseguimos explorar com calma, entrar nos principais pontos sem grandes filas e, acima de tudo, viver Veneza ao nosso ritmo.

Veneza é também uma cidade que vive com a água, literalmente. Dependendo da altura do ano, pode acontecer o fenómeno de acqua alta, que faz com que algumas zonas fiquem temporariamente inundadas. Não nos aconteceu, mas é algo a ter em conta ao planear a viagem.

No final, é isso que fica. Mais do que uma lista de sítios, Veneza é uma experiência sensorial constante, feita de água, luz, silêncio e pequenas descobertas. Uma cidade que se percorre devagar, que se sente mais do que se vê, e à qual, inevitavelmente, vamos querer voltar.

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