A Madeira é um destino que muda a cada curva da estrada e onde as distâncias são medidas em túneis e mudanças de altitude. Em poucos quilómetros, uma estrada pode levar-nos por um mundo de contrastes, desde uma praia de areia preta a uma floresta húmida ou a um planalto a 1.500 metros de altitude.
Conhecer a ilha em dois dias é um projeto ambicioso, se não impossível. Conscientes disso desde o início, embarcámos numa viagem com o simples objetivo de começar a explorar a Madeira e, quem sabe, ficar com vontade de voltar.
O destino, durante anos associado sobretudo a um público mais velho, tem vindo a conquistar viajantes mais jovens e famílias, num movimento impulsionado, entre outros fatores, pela maior exposição nas redes sociais e pelo reforço da promoção turística depois da pandemia. Hoje, há quem chegue à ilha à procura das levadas e paisagens naturais, mas também de experiências gastronómicas, atividades de aventura, vinho e lugares magníficos para fotografar.
De Machico a Santana

O avião aterra pouco depois das nove da manhã. Ainda há muito dia pela frente e a primeira paragem fica perto do aeroporto: Machico.
É aqui que começa a viagem com a DTL Tours, empresa vocacionada para circuitos em grupo normalmente com 16 a 20 pessoas, com percursos por cerca de 50€. O primeiro destino é o Miradouro de Machico, um dos primeiros pontos de contacto com a paisagem e a história da ilha, de onde se avista a baía e uma das poucas praias de areia da ilha.
Numa solução que tornou possível criar um areal numa região onde predominam as praias de calhau, a areia foi importada de Marrocos. A escolha é justificada por uma curiosidade geográfica: a Madeira encontra-se sensivelmente à mesma latitude de Casablanca.
Mas Machico tem um lugar especial na história da ilha. Foi aqui que os portugueses se instalaram após a chegada ao arquipélago, no século XV, e a localidade assumiu o estatuto de primeira capital da Madeira.
Ao longe, no Atlântico, é ainda possível identificar o Lobo Marinho, o ferry que liga diariamente o Funchal a Porto Santo.
A manhã ainda vai no início quando chegamos ao Miradouro do Pico do Facho – uma boa hora para visitar um dos miradouros mais procurados da ilha, antes da chegada das multidões. A vista abre-se sobre Machico e, do outro lado, sobre a Ponta de São Lourenço.
A estrada segue depois em direção ao Caniçal e à Ponta de São Lourenço. Pelo caminho, a paisagem começa a mudar. A vegetação torna-se mais escassa e o cenário ganha tons áridos que fazem lembrar Porto Santo. É uma das muitas particularidades da Madeira: numa mesma ilha, a paisagem pode passar rapidamente do verde intenso à aridez.
No Caniçal, antiga vila piscatória ligada à atividade baleeira, o mar continua a ser protagonista. Hoje, a região é procurada para atividades como snorkeling, já que o arquipélago madeirense é também um destino conhecido para observação de espécies marinhas.
Pouco depois surge a Praia da Prainha, uma das praias de areia preta da Madeira, antes de chegarmos ao Miradouro da Ponta do Rosto. O nome explica-se pela própria configuração da costa, que faz lembrar um rosto.

A viagem prossegue para Porto da Cruz. Na Praia da Alagoa, o areal escuro contrasta com o verde das encostas e, junto à costa, as ondas atraem praticantes de bodysurf. A maré baixa revela também uma atividade tradicional da ilha: a apanha de lapas.
É também aqui que encontramos os Engenhos do Norte, ligados à produção de aguardente e rum a partir da cana-de-açúcar.
A fábrica, adega de envelhecimento e loja pode ser visitada gratuitamente de segunda a sexta, das 9h às 18h, e sábados e domingos das 10h às 17h. Durante os meses de abril e maio, é ainda possível assistir à laboração do engenho ao vivo, observando todo o processo tradicional de produção.
A cana chegou à Madeira no século XV e tornou-se uma das culturas marcantes da história económica do arquipélago. A poncha é talvez o exemplo mais conhecido. Na receita tradicional juntam-se aguardente de cana, mel de abelha e sumo de limão, embora atualmente sejam frequentes versões com laranja ou maracujá. A chamada poncha à pescador segue outra preparação, à base de açúcar, aguardente e cascas de limão.


Depois de Porto da Cruz, o Miradouro do Guindaste oferece mais uma vista sobre a costa norte antes de a estrada nos levar a Santana.
As casas tradicionais são uma das imagens mais reconhecíveis da Madeira. Pequenas, construídas em madeira e cobertas por telhados de colmo, estão associadas a uma arquitetura rural que nasceu também da necessidade de aproveitar os recursos disponíveis.
Uma delas, que podemos visitar, guarda uma história familiar. O proprietário, Manuel, regressou à Madeira depois de anos emigrado na Venezuela para recuperar a casa onde viveram os seus bisavós, avós e pais. Com mais de dois séculos, a habitação mantém elementos da sua configuração original e algumas peças de mobiliário, incluindo o fogão e cómodas antigas, que ajudam a reconstruir a vida de quem ali viveu.


Experiências gastronómicas e um vinho que aprendeu a viajar
Para terminar a primeira manhã, a escolha é a Quinta do Furão, em Santana. O projeto hoteleiro começou com um restaurante, em 1993, destinado a receber quem visitava o norte da ilha e acabaria por crescer para um hotel.
Hoje, a propriedade conta com 65 quartos e duas vilas, distribuídos por cinco hectares, três dos quais ocupados por vinhas. A arquitetura mantém referências às tradicionais casas de Santana, incluindo os telhados concebidos para responder à elevada pluviosidade da região.
A experiência no espaço conta ainda com atividades ligadas à cultura local, desde vindimas e provas de rum a workshops de poncha e pão, aulas de português para turistas e sessões de ioga.
À mesa, a Madeira ocupa também o centro das atenções, não só pela vista grandiosa sobre a ilha, mas também pelos produtos locais reinterpretados no restaurante, onde até o pão caseiro tem um sabor especial – e pode ser comprado no local. Pratos como torricado de favas, peixe do dia com molho vilão e carne de porco de vinha d’alhos com puré protagonizam a experiência, que termina com o tiramisú de poncha. O restaurante tem um preço médio de 25€ por pessoa.



À tarde, de regresso ao Funchal, visitámos o Madeira Wine Lodge para uma prova de vinho da Madeira – algo que não pode faltar numa visita à ilha.
No Madeira Wine Lodge, um edifício que teve anteriormente funções de prisão e hospital e que funciona como adega desde 1988, a história do vinho da Madeira conta-se através de técnicas de produção pouco comuns associadas a viagens de barco.
O vinho é envelhecido em condições de calor, nomeadamente em sótãos, num processo associado à tradição da estufagem e ao percurso histórico do vinho durante as viagens marítimas. O resultado é um vinho fortificado com uma enorme variedade de estilos e perfis.
Entre as castas encontram-se Sercial, Verdelho, Bual e Malvasia, sendo possível fazer uma prova horizontal com vinhos do mesmo ano, começando pelos mais secos e terminando nos mais doces. Por 17€, ou 23€ para a opção premium, é possível realizar a visita ao Madeira Wine Lodge e a prova.

A experiência gastronómica continua no restaurante Oxalis, recomendado pelo Guia Michelin e localizado no histórico hotel Casa Velha do Palheiro, acima do Funchal e a 20 minutos do aeroporto. A cozinha trabalha produtos madeirenses com uma abordagem contemporânea e até o pão participa na experiência: brioche de algas e pão de fermentação natural chegam à mesa acompanhados por manteiga tradicional e manteiga de algas.
Antes do primeiro prato, provamos o Atlantis Branco 2025, um vinho branco de mesa da Madeira, com a casta Verdelho. A refeição começa com uma mousse de ovo, acompanhada por raspas de gaiado e lima, onde a textura cremosa contrasta com o sabor salgado do peixe. Há ainda atum cru, cortado em pedaços mais espessos, acompanhado por laranja, rabanete, molho cítrico e manjericão, com gaiado ralado a acrescentar intensidade.


Sempre com o acompanhamento atencioso do Luís, que trabalha no Oxalis há 27 anos, continuamos com um copo de Terras do avô 2024, um vinho branco de mesa do Seixal. Este vinho traz a combinação ideal para o prato principal: bodião com diferentes texturas de funcho, molho holandês de miso e algas, um prato que homenageia o tão importante funcho da Madeira, como explica a subchefe de cozinha Cláudia Cassapo. A planta existia em abundância quando os portugueses chegaram à ilha e está na origem do próprio nome Funchal.
Para a sobremesa, além de um copo de Bual 10 anos da Blandy’s, há ananás, nata e maracujá, numa combinação de sabores inspirada na Nikita, a bebida alcoólica tradicional originária de Câmara de Lobos.
O Oxalis oferece menus de degustação a partir dos 95€ com harmonização de vinhos a partir dos 55€. Quem optar pelo menu à la carte pode contar com entradas com um preço médio de 18€, pratos principais na ordem dos 36€ e sobremesas a partir dos 11€.



Assim termina o nosso primeiro dia na Madeira, percebendo que a gastronomia não está separada da paisagem e que o funcho, os sabores salgados do gaiado, a cana-de-açúcar e até o vinho contam a mesma história.
Do Atlântico aos 1500 metros de altitude
A melhor forma de compreender a Madeira é talvez através de uma jeep tour, que permite atravessar zonas agrícolas e caminhos menos acessíveis, aproximando-se de uma das imagens mais características do território: os socalcos. A Green Devil tem propostas a partir dos 50€, com desconto de 50% para crianças até aos 11 anos, e experiências de dia inteiro, meio dia ou ainda tours privados de 4×4.
Foi assim, com a companhia do nosso guia, que começamos o segundo dia, em direção ao Cabo Girão.
Ao longo da viagem, na costa sul, a banana é uma das culturas que se destacam no meio do paisagem. As plantações descem pelas encostas e a produção continua a depender fortemente de trabalho manual. A apanha, o transporte e muitas das tarefas associadas à cultura são feitos à mão, num sistema agrícola adaptado às pequenas parcelas e à inclinação do terreno.
Pequenas propriedades continuam a experimentar diferentes culturas. Café, batata-doce, frutos tropicais e até chá fazem parte de um território que tem sido descrito como uma espécie de laboratório agrícola europeu.
Na primeira paragem, Cabo Girão, encontramo-nos a 589 metros de altitude, numa falésia que é uma das mais altas da Europa. A plataforma suspensa permite olhar diretamente para o oceano. Atualmente, a visita ao miradouro custa 5€ para adultos e crianças até 11 não pagam.

Enquanto continuamos o nosso percurso em direção às montanhas, o nosso guia continua a contar-nos um pouco mais sobre a história da Madeira. As levadas começaram a ser construídas no século XV para transportar água das zonas mais húmidas do norte para as regiões agrícolas do sul, através de um complexa rede de canais. Hoje, a rede estende-se por milhares de quilómetros e tornou-se também uma das principais formas de conhecer a ilha a pé.
Mas, para quem procura mais adrenalina, existem ainda atividades como canyoning, passeios de moto 4, os famosos carrinhos de cesto ou atividades de baloiço e ZipLine. Na Fajã do Barro, em Porto Moniz, a Adrenaline X-Treme Adventures promove experiências num baloiço gigante num penhasco a 250 metros de altura e com vista de 360 graus para o Atlântico, por 39€. Já quem quiser voar uma distância 1.6 km a uma velociadade de 110 km/h pode optar pela ZipLine, por 69€, ou pelo combo, que junta as duas experiências por 89€.
À medida que continuamos o nosso percurso, a paisagem de banana dá lugar a uma vegetação cada vez mais densa, até chegarmos ao Paúl da Serra, o maior planalto da Madeira, a cerca de 1500 metros de altitude. Este território ocupa cerca de 24 quilómetros quadrados e funciona como uma importante reserva de água.
A viagem regressa à costa norte pelo Seixal, uma localidade mais pequena e tranquila do que Porto Moniz, conhecida pelas vinhas, pelas encostas verdes e pela praia de areia preta.
Depois chega Porto Moniz, uma das paragens mais procuradas do norte da ilha. As suas piscinas naturais resultam da ação do mar sobre as rochas vulcânicas e tornaram-se uma das imagens mais reconhecíveis da Madeira. Há uma zona de acesso gratuito e outra de acesso pago, com infraestruturas preparadas para receber visitantes. Há até uma que foi eleita a melhor da Europa, onde a entrada custa 3€.

Depois vem o almoço no Restaurante Calamar, em São Vicente, onde tivemos a oportunidade de provar as famosas espetadas da Madeira e experimentar as lapas. O restaurante tem uma ampla esplanada com vista para o mar e um menu extenso com pratos para todos os gostos, com opções a partir dos 14€.
Finalmente, terminámos o dia na Ilha das Aves, um parque e mini jardim zoológico de aves localizado na Estrada da Lapa, no Campanário, concelho da Ribeira Brava.
Os bilhetes custam 7€ para adultos e 5€ para crianças e permitem ver uma diversidade de aves como araras, cacatuas, papagaios, cisnes. Mesmo antes da saída há até uma surpresa: uma gaiola aberta onde os visitantes podem estar com os animais – uma forma relaxante de nos despedirmos da ilha.


Entre Machico e Porto Moniz, de volta ao Funchal, passámos por praias de areia preta, falésias, plantações de banana, vinhas, casas de colmo, florestas, levadas, montanhas e alguns dos cerca de 180 túneis da ilha. Provámos vinho, gaiado, funcho e produtos cultivados na própria ilha.
A Madeira é um território que, com os seus menos de 800 quilómetros quadrados construídos entre a água e a montanha, onde a agricultura se adaptou às encostas e a gastronomia preservou ingredientes que fazem parte da história da ilha, pode parecer pequeno no mapa, mas não restam dúvidas que não cabe em dois dias.
*viajou a convite do Turismo da Madeira


































