Há um momento, ainda antes de chegar o primeiro prato, em que se percebe que o jantar no Touta não vai ser apenas sobre comida. À mesa, é Rita Abou Ghazale quem conduz a experiência, escolhendo os pratos e os vinhos, mas também contando a história por detrás de tudo aquilo que chega.
O restaurante abriu em 2024, em Campo de Ourique, mas a carta foi renovada no início de 2026 e continua em constante evolução. “É sempre uma cozinha em movimento”, explica. Ingredientes sazonais entram e saem do menu ao longo do ano, numa abordagem que privilegia produtos portugueses de alta qualidade, trabalhados com técnicas e sabores libaneses.
“Não é fusão”, explicou Rita ao longo do jantar. “É uma forma de respeitar os dois lados.” A cozinha parte de sabores tradicionais libaneses, mas trabalha-os com ingredientes portugueses, técnicas francesas e uma abordagem contemporânea, sempre com preocupação de desperdício mínimo e sazonalidade.
Ao seu lado, a chef Cynthia Bitar traz uma formação francesa e uma herança profundamente enraizada na cozinha libanesa. O resultado é uma cozinha pessoal, emocional e tecnicamente precisa, que transforma pratos familiares em algo novo, sem nunca perder a identidade.

O lado artesanal do projeto sente-se também fora do prato. No fundo do restaurante, uma pequena loja reúne alguns dos produtos feitos na cozinha do restaurante, desde pickles e fermentados a compotas e conservas usadas nos próprios pratos. É quase uma extensão da filosofia do Touta: produção pequena e sazonal.
O espaço acompanha essa lógica intimista e pessoal, com fotografias, objetos e referências ao percurso das duas sócias espalhados pelo restaurante, quase como uma extensão da sua própria história.
A carta de bebidas segue a mesma lógica. Rita Abou Ghazale é responsável pela seleção dos vinhos, que cruza referências portuguesas e libanesas, além de bebidas feitas na casa, como ginger beer artesanal.
O jantar começa com um vinho branco libanês, um Merwah do Chateau Ksara de 2023, leve e delicado, a preparar o paladar para uma sequência de pratos pensados para partilhar.



Os croquetes de batata (9€, duas unidades) chegam primeiro. Dourados por fora, com uma crosta crocante que cede rapidamente, revelam um interior surpreendentemente cremoso, onde a batata e a carne picada se fundem num registo reconfortante. A couve acrescenta textura e o ketchup de beterraba traz uma doçura subtil, quase terrosa, que equilibra o conjunto.
Segue-se o zlebieh (8€), um pão libanês assado no forno, leve e muito fofo, servido com zaatar, uma mistura de especiarias típica do Médio Oriente. O labneh cremoso, semelhante a queijo-creme, e o makdous de azeitona com nozes acrescentam profundidade, criando um equilíbrio inesperado entre frescura e intensidade.
O kafta (21€), apresentado como tártaro de novilho maturado a seco, marca uma mudança de registo. É fresco, vibrante, com salsa e hortelã a darem-lhe uma leveza aromática que contrasta com a intensidade da carne. Ao lado, as batatas fritas em gordura de vaca são um pequeno destaque à parte. Cortadas em cubos generosos, chegam incrivelmente crocantes, com um interior macio e sem qualquer sensação de peso.
Nos espargos (18€), percebe-se melhor a filosofia da casa. São brancos, orgânicos, vindos de Guimarães, fermentados na cozinha do restaurante e servidos com freekeh tufado e um molho fumado feito a partir da própria água de cozedura. O resultado é um prato que parece simples, mas onde cada elemento contribui para uma experiência complexa, com notas fumadas, acidez subtil e diferentes texturas a surgirem em cada garfada.



Antes dos principais, chega uma pequena porção de húmus (15€) que rapidamente se torna um dos momentos da noite. Extremamente cremoso e equilibrado, com pinhões de Alcácer do Sal e azeite infusionado com sujuk, mostra como um prato tão simples pode ganhar outra dimensão quando há técnica, produto e precisão.
Os vinhos evoluem ao longo do jantar. Depois do primeiro branco mais leve, surge o Altitudes Ixsir 2024, mais redondo e ligeiramente doce, antes de um terceiro vinho mais seco que fecha a sequência.
Nos pratos principais, o destaque vai para a lula dos Açores, no prato Provençale (26€). Grelhada no ponto certo, mantém-se tenra e suculenta, envolvida por uma emulsão de coentros e limão que remete para um bulhão pato. Ao lado, os gnocchi de açorda absorvem o molho e trazem uma textura reconfortante, criando um prato que é simultaneamente familiar e completamente novo.
O shawarma de porco preto alentejano (28€) segue outro caminho. A carne, marinada durante 48 horas, é intensa e suculenta, servida num pão brioche japonês feito na casa, macio e ligeiramente adocicado. O chimichurri com influência libanesa e as cebolas em pickle acrescentam frescura e acidez, equilibrando a riqueza do prato.

A sobremesa fecha a experiência com uma combinação entre merengue e macaron, onde o lemon curd é aromatizado com zaatar, a mistura de especiarias típica do Médio Oriente. Os morangos, frescos e em calda, trazem acidez e doçura, resultando num final leve, mas cheio de nuances.
Ao longo da noite, há uma ideia que se repete. A cozinha do Touta não tenta impressionar com excesso, mas com precisão. Cada prato parece construído com intenção, onde poucos ingredientes são levados ao limite do seu potencial.
A certa altura da conversa, Rita explica que Portugal surgiu naturalmente no caminho das duas sócias. Antes mesmo de se mudarem, visitavam frequentemente o país e encontravam semelhanças inesperadas com o Líbano, na luz, nos produtos, no azeite, no vinho e até em certas influências históricas. Quando a situação no país se agravou, decidiram começar de novo em Lisboa. Chegaram em 2023 e abriram o restaurante no ano seguinte.
Hoje, o desafio é outro. Dar a conhecer uma cozinha que “muitos associam apenas a street food“, mas que aqui surge numa versão mais trabalhada.
No fim, fica a sensação de que este não é apenas mais um restaurante em Lisboa. É um projeto pessoal, construído com resiliência, técnica e memória. E isso sente-se, claramente, em cada prato que chega à mesa.


























