Butão. Aaron Santelices/Unsplash
Butão. Aaron Santelices/Unsplash

Durante décadas, viajar até ao Butão foi quase um privilégio reservado aos mais determinados. Localizado no extremo oriental dos Himalaias e conhecido pela sua política rigorosa de controlo do turismo, o pequeno reino budista prepara-se agora para uma transformação histórica que poderá mudar a forma como o mundo o visita.

Segundo a BBC, o país está a desenvolver um ambicioso projeto que junta um novo aeroporto internacional a uma cidade inteiramente planeada de raiz. A iniciativa pretende impulsionar o desenvolvimento económico do sul do território e facilitar a chegada de visitantes estrangeiros, sem abdicar do modelo de turismo sustentável que tornou o Butão famoso.

O grande protagonista é o futuro Aeroporto Internacional de Gelephu, cuja inauguração está prevista para 2029. O projeto já conquistou o prémio de Projeto Futuro do Ano no Festival Mundial de Arquitetura de 2025 e destaca-se pela arquitetura inspirada na identidade local. O terminal será construído em madeira butanesa trabalhada em treliça, concebida para ajudar a regular naturalmente a humidade e refletir a paisagem montanhosa envolvente.

Mas não será apenas um local de passagem. Os planos incluem espaços dedicados à meditação, sessões de ioga e até banhos de gongos, numa abordagem alinhada com a forte tradição espiritual do país. Ainda assim, a principal missão da infraestrutura será servir de porta de entrada para a Gelephu Mindfulness City (GMC), uma nova cidade que promete redefinir a região sul do Butão.

Com capacidade prevista para receber até 123 voos por dia, o aeroporto representará uma mudança significativa para um país que, até agora, contava apenas com um aeroporto internacional: Paro.

Chegar ao Butão nunca foi simples. Os visitantes provenientes da Europa ou da América do Norte costumam enfrentar vários dias de viagem e escalas em cidades como Banguecoque, Catmandu ou Nova Deli antes de alcançarem o destino final. Além disso, os preços das ligações aéreas estão longe de ser económicos.

A própria aterragem em Paro é considerada uma experiência singular. Situado a mais de 2.200 metros de altitude e rodeado por montanhas que ultrapassam os 5.500 metros, o aeroporto é frequentemente apontado como um dos mais desafiantes do mundo. A aproximação exige manobras complexas realizadas exclusivamente à vista, sem assistência de radar para a fase final da aterragem, razão pela qual apenas um número muito reduzido de pilotos está certificado para operar naquele local.

Apesar da aposta na acessibilidade, o Butão não pretende abandonar a filosofia de turismo controlado que tem seguido nas últimas décadas. O país abriu-se oficialmente aos visitantes internacionais apenas em 1974 e sempre privilegiou um modelo de baixo impacto e elevado valor acrescentado.

Até à pandemia, os turistas eram obrigados a reservar a viagem através de um operador turístico e a pagar uma taxa diária de 200 a 250 dólares (172€ a 215€) que incluía alojamento, refeições, transporte e várias taxas governamentais. 

Desde 2022, a tarifa com tudo incluído foi substituída por uma taxa de sustentabilidade de 100 dólares (cerca de 86€), cobrada por adulto por noite, com os custos de viagem organizados separadamente.

A grande novidade será a abertura do sul do país, uma região pouco explorada pelos circuitos turísticos tradicionais. Enquanto a maioria dos visitantes segue itinerários que passam por Thimphu, Punakha, Phobjikha ou Bumthang, Gelephu apresenta uma realidade completamente diferente daquela que habitualmente surge nos postais do Butão.

Aqui, a paisagem é subtropical, marcada por palmeiras, rios, plantações de cardamomo, laranjais e fontes termais frequentadas pelos habitantes locais há gerações. A região está ainda rodeada por áreas naturais de enorme importância ecológica, incluindo o Parque Nacional Real de Manas.

Nos próximos anos, os viajantes poderão encontrar naquele território espécies emblemáticas como tigres, elefantes asiáticos, rinocerontes, leopardos-nebulosos e langures-dourados. A diversidade avifaunística também impressiona: existem mais de 360 espécies de aves registadas na zona, incluindo a raríssima garça-de-barriga-branca, considerada criticamente ameaçada.

A nova cidade terá igualmente uma ligação ferroviária de 69 quilómetros ao estado indiano de Assam, um passo histórico para um país que nunca teve uma rede ferroviária nacional. Se os planos avançarem conforme previsto, a Gelephu Mindfulness City poderá acolher cerca de um milhão de residentes até 2060.

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