Gramado / Foto: pixabay Edson Junior

Por Filipe Batista

O voo da TAP para Porto Alegre, no Brasil, pode ser o mais longo de todos da companhia portuguesa, mas as 11 horas de duração (nem se deu por isso) conduzem-nos a uma das mais bonitas regiões do Brasil e uma das que os portugueses menos visitam. Porquê? Provavelmente, porque Brasil é sinal de praia e calor, o que não é de todo o forte do Rio Grande do Sul. Nem as belas praias de Santa Catarina já ali ao virar de um ou dois cânions parecem convencer os fãs lusos de outras paragens brasileiras. Talvez a cidade de Gramado, onde se vive o Natal como em poucos locais do mundo e onde até já alguém teve a ideia de o celebrar todo o ano os possa seduzir. Como assim? Calma, que já tudo se explica. Nem sabe o que anda a perder.

A aventura começa ao aterrar no aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul. Não sendo propriamente uma cidade com muitos atrativos (o edifício do mercado é um deles) deve parar por lá, à chegada, para dormir e carregar baterias para o que se segue nos dias seguintes.  

A uma centena de quilómetros a norte encontra-se Gramado, uma pequena cidade que teve forte presença açoriana, no século passado, mas que depois foi colonizada por alemães e outros países da Europa central e do norte. Fruto desta presença e do clima muito mais fresco que no resto do Brasil, onde inclusivamente chega a nevar (atualmente menos), as construções de Gramado assemelham-se a uma qualquer cidade dos Alpes, valendo-lhe a alcunha de Suíça do Brasil. Na verdade, até os bares, cafés, restaurantes e hotéis acompanham toda esta bizarria, com bancos forrados de pêlo e alguns espaços hoteleiros até apresentam lareiras artificiais.

Este faz de conta primeiro estranha-se, mas depois entranha-se. A culpa em grande parte é também de um outro fenómeno que sucede em Gramado: a loucura pelo Natal. A partir do final de agosto, a cidade começa a vestir-se a rigor para esta época e não há um edifício que não respire espírito natalício. É o Natal Luz, como lhe chamam, enfeitado e iluminado, com luzes por toda a cidade e mais Pais Natal do que aqueles que se conseguem contar, além do mundo de fantasia que não estamos à espera de ver.  

 

Depois, tudo à volta vive de e para o Natal. Até um antigo parque da cidade, um dos primeiros de Gramado, se transformou de forma permanente numa aldeia do Pai Natal. Foi uma solução intermédia, dizem-nos, para quem acha que o Natal na cidade deve durar o ano todo e para quem apela à ponderação.

Hotelaria junta-se à festa

Esta paixão (para alguns em excesso) estende-se aos hotéis locais, com especial destaque para o Chocoland Hotel, onde o chocolate (e que bom que ele é) é rei e a decoração é a condizer. Fica difícil compreender como é que alguém no Brasil se delicia com uma caneca de chocolate quente neste país. Mas em Gramado faz sentido e as temperaturas, longe do inverno europeu, conseguem ainda assim ser frias o suficiente para pedir uma xícara de chocolate local.

“Circo” para uns, atmosfera envolvente para outros, Gramado é atrativo o suficiente para acolher seis milhões de turistas anualmente, numa cidade onde vivem não mais de 45 mil pessoas. Para ficar verdadeiramente impressionado, estes números superam o número de turistas internacionais que visitam o Brasil inteiro, por ano. Portanto, a maioria esmagadora de quem visita Gramado são brasileiros, seguidos de uruguaios e argentinos. Portugueses são ainda poucos, mas fazem mal.

Do ponto de vista analítico, Gramado tem tudo para ser um destino para os nossos turistas. Tem um ambiente natalício ótimo, uma gastronomia de sonho, boa oferta hoteleira, parques temáticos para dar e vender e atrações que nunca mais acabam (até um museu do sexo e da selfie aqui estão instalados). Os preços nem em sonhos se conseguiam alcançar na Suíça, Alemanha ou qualquer país daqueles em que Gramado se inspira. Ainda que menos em conta do que outros locais do Brasil, Gramado está perfeitamente ao alcance de qualquer português que faça viagens de férias ao estrangeiro.

Desenjoar do Natal

Quando já se transpira Natal por todos os poros, esta cidade de fantasia oferece uma panóplia de alternativas. Dentro da linha do faz de conta, o Mini Mundo é realmente um must go. Trata-se de um parque temático em miniatura, com réplicas tão perfeitas que se tirar fotografias ao perto, quem as vê nem se dá conta que é irreal. É sentir-se o Gulliver no meio de tanta miniatura.

Em Gramado, é preciso ter presente que quase nada é originário desta cidade, mas é tudo verdadeiramente original. Até as alternativas no meio da natureza. O Lago Negro é exemplo disso. Criado por Leopoldo Ronsenfeldt, um visionário que viu nesta região um enorme potencial turístico, o lago recebeu o seu nome, porque as árvores que o circundam são da mesma espécie que as que embelezam a floresta negra, na Alemanha. As sombras tornam também este lago escuro.

Um dos outros parques que merecem uma visita é, sem sombra de dúvida, o Garden Park. Este jardim alberga mais de 50 mil flores e quatro quilómetros de caminhos, que se podem percorrer e criar arquivo fotográfico para as suas redes sociais, por várias semanas ou meses. É de facto de uma beleza indescritível, apesar de, mais uma vez, ser original, mas não originário, de Gramado.

Gastronomia gaúcha com uma redução de cozinha europeias

Não é justo dizer que a cozinha brasileira e, neste caso, a gaúcha, são originárias da Europa, fruto da colonização europeia (onde é que isso já vai?) A gastronomia local já encontrou o seu caminho há algum tempo e todas as influências foram bem vindas. Isto para dizer o quê? Que ninguém serve carne como os gaúchos. Se é fã este é o lugar certo. Claro que estes a trocam facilmente por comida italiana. Por todo o lado existem restaurantes que servem boas refeições a preços em conta. Pode passar pela rua coberta, bem no centro, e experimentar a culinária local, na tal atmosfera natalícia.

Para descansar deste parque temático em que se transformou assumidamente Gramado, existe um sem número de hotéis, com algumas cadeias internacionais a caminho. Mais afastado do centro, mas a curta distância existe, para além do já referido Chocoland, o Buona Vitta Gramado Resort & Spa, ideal para famílias e servido por várias piscinas, uma delas interior.

Gramado é um sonho transformado em realidade, patrocinado em muito pela figura de duas mulheres e sócias, Marta Rossi e Sílvia Zorzanello (já falecida, mas cujo lugar foi ocupado pelo filho, Eduardo), que criaram um dos maiores eventos de turismo do Brasil: o Festuris, que celebrou este ano 35 anos. Graças ao contributo das duas, esta cidade Gaúcha tornou-se hoje num pólo de atração muito importante para a economia local e nacional.

Um lugar do outro Mundo a pouca distância

Um dia de pausa em Porto Alegre e três dias em Gramado são suficientes, o que numa viagem ideal de oito dias faz com que sobrem outros quatro. O que fazer com eles? Subir mais cerca de 100 quilómetros e visitar um dos locais mais bonitos e inóspitos do Brasil: Os famosos caniôns brasileiros de Cambará do Sul. Desaparece o mundo de fantasia e nasce um outro de sonho, que nenhuma imagem consegue transmitir em toda a sua plenitude (mas tentamos).

De uma grandiosidade e de uma beleza rara, são um santuário de Natureza praticamente intocada, que a mão do Homem ainda não conseguiu vergar. Orientados para quem gosta de fazer trilhos, as autoridades brasileiras foram mais inteligentes do que isso e democratizaram uma parte destes magníficos acidentes geográficos, para que toda a gente possa ter acesso a eles.

A mudança de ares é abrupta e chegar a Cambará do Sul depois de visitar Gramado é certamente um choque e uma viagem no tempo. Por uma questão prática e de ganhar tempo é melhor começar por aqui, sem prejuízo nas contas finais de estadia. Cambará, nome dado a uma espécie de árvore local, alberga pouco mais de seis mil habitantes e é rica em história e feita de lutas, mas hoje, são os mais de 20 caniôns que a circundam que dão que falar.  

Um desses exemplos é o Cânion Itaimbezinho. Localizado a 15 quilómetros, foi concessionado a uma empresa privada, que tornou este local seguro para visitas. Ao longo dos seus vários trilhos, todos planos ou de curta inclinação, é possível ver quedas de água assombrosas que vão prosseguindo a sua ação erosiva. Este Caniôn em particular tem a particularidade de separar dois estados: O de Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, onde estão as tais praias brasileiras, tão apreciadas pelos portugueses.

Não muito longe dali, um outro caniôn mostra a grandeza deste local. Trata-se do Caniôn Fortaleza, onde há 12 anos foi gravada parte da novela portuguesa, Espírito Indomável, com a atriz Vera Kolodzig como protagonista. Também este se apresenta seguro para os seus visitantes. No seu ponto mais alto, tem uma zipline para corajosos, que na sua descida sobrevoam uma cascata gigante.

O veredicto para este local é só um: Chegar aqui e manter este contacto com a Natureza é ainda possível a um custo acessível, o que o torna duplamente atrativo. O alojamento é basicamente local, com habitações bastante apelativas e com todas as comodidades para descansar de um dia de passeio na natureza.

Elegemos a Pousada Coruacas, uma propriedade de muitos hectares onde pode dormir numa cabana junto a um lago, dar passeios a cavalo e até visitar uma cascata. Os anfitriões são tão prestáveis que se precisar de algo eles atenderão ao pedido prontamente. Parece uma daquelas fazendas antigas das novelas e o dono, vestido a rigor, ajuda ao cenário. Este Brasil é uma verdadeira surpresa.

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