Há restaurantes que fazem parte da cidade como se sempre lá tivessem estado. No nº 5 da Praça do Príncipe Real, em plena Lisboa, o Miss Jappa celebra uma década a provar que a cozinha japonesa pode ser irreverente, divertida e assumidamente gulosa. Para assinalar os dez anos de “junk food” asiática fora da caixa, a casa desafiou três chefs convidados – Anna Lins, Nuno Gonçalves e Natalie Castro – a reinventar a carta e a desenhar um novo capítulo para o restaurante.
A escolha não foi inocente. Anna Lins esteve na génese do projeto há dez anos e regressa agora às origens com vontade de revisitar clássicos. Nuno Gonçalves traz na bagagem a experiência em ramen e street food, alimentada por viagens a Tóquio. Já Natalie Castro propõe uma ponte declarada entre Japão e Portugal, cruzando ingredientes e memórias de ambas as culturas. Ao longo dos próximos meses, o trio vai ainda protagonizar jantares pop-up exclusivos, reforçando esta dimensão celebratória e colaborativa.



O ambiente continua fiel à identidade que conquistou a cidade: descontraído, luz baixa, mesas animadas e um burburinho cúmplice de quem já sabe que aqui não se vem apenas para jantar.
Começámos pelo Onigiri Grelhado (7,50€), criação que encaixa na perfeição no ADN jovem da casa. À primeira vista, parece um clássico bolinho de arroz de sushi envolto em alga nori. Ao segundo olhar, revela-se mais indulgente. No interior, carne picada bem temperada com cebolinho e gengibre, suculenta e aromática. Por fora, uma crosta dourada de mozzarella e parmesão cria o contraste perfeito entre o crocante tostado e o arroz macio. O molho tonkatsu, servido à parte, acrescenta profundidade e um toque agridoce que equilibra cada dentada.
Seguimos para o Roru Kyabetsu (9€), assinado por Natalie Castro, onde a couve-lombarda envolve um recheio de carne picada, tomate, gengibre, alho, mirin, sake e molho de soja. O resultado é delicado na apresentação, mas intenso no sabor. Um prato reconfortante, onde a técnica japonesa dialoga com sabores que nos são familiares.


Do lado mais fresco do menu, o Crudo de Atum Braseado (13,50€), pelas mãos de Anna Lins, mostrou-nos o lado mais refinado da nova carta. O atum, ligeiramente braseado, mantém-se rosado e amanteigado. O abacaxi picado acrescenta acidez e frescura tropical, enquanto os fios crocantes de beterraba introduzem textura e contraste visual. Leve, equilibrado e elegante, é o tipo de prato que prepara o palato para o que vem a seguir.
Nos principais, rendemo-nos ao TKG Donburi (20,50€), uma espécie de “poke bowl” elevado. Numa taça funda, o arroz de sushi serve de base a uma combinação vibrante de salmão, atum e corvina. No topo, uma gema de ovo brilhante pronta a envolver cada grão numa camada cremosa e rica. Misturamos tudo à nossa frente e instala-se uma explosão de umami e frescura, pontuada pelo sésamo e pelo toque subtilmente picante do shichimi togarashi.

Mas se há algo que define esta fase do Miss Jappa é a componente lúdica, herança direta da visão original de Anna Lins. No sushi, escolhemos o The Bomb, The Game (4 pcs/12,50€). Chega à mesa uma pequena tábua com quatro taças viradas ao contrário e um dado. Cada jogador lança-o; quem tira o valor mais alto escolhe primeiro e levanta uma das taças. Lá dentro, sushi bites de atum, salmão e camarão. Numa delas esconde-se “The Bomb”: um shot com um dos cocktails da casa e um panipuri recheado com salmão. Entre risos e alguma tensão, percebemos que aqui não se trata apenas de comer, mas de viver a experiência.
Não podíamos sair sem revisitar um clássico: a icónica Roleta Russa (6 pcs/14,50€). Seis gunkans num prato giratório, dois de cada tipo, e um deles com uma malagueta traiçoeira no interior. Quem tiver o azar (ou sorte) de a encontrar, bebe o shot de sakê ao centro. Continua a ser um dos momentos mais divertidos da carta, aquele prato que resume na perfeição a identidade irreverente da casa.
A acompanhar, brindámos com dois cocktails que merecem destaque. O Tokyo Garden (9,25€) mistura gin Tanqueray, lemongrass, lima, gengibre, coentros, ginger ale e hortelã. É fresco, herbal e ligeiramente picante: quase como um jardim asiático em versão líquida. Já o Mr. Murray (9,75€) combina gin Tanqueray, sakê, limão, sumo de yuzu e manjericão, num equilíbrio elegante entre acidez cítrica e notas aromáticas.

Para terminar, a Tarte de Yuzu Merengada (6€). A base crocante sustenta um recheio cremoso, vibrante e cítrico, onde o yuzu surge intenso mas equilibrado. O merengue, leve e tostado no topo, acrescenta doçura e uma textura aérea que contrasta com o interior. Cada colherada é um jogo entre acidez, açúcar e crocância, o final perfeito para uma refeição que vive de contrastes.
Para quem quiser ir mais longe nesta viagem comemorativa, há outras novidades na carta que prometem merecer visita. O Zaru Udon (11,50€), criação de Nuno Gonçalves, combina massa udon com cachaço de porco, molho de amendoim, coentros e pepino, numa proposta fresca e cheia de contraste. Do mesmo chef, destaca-se ainda o Tokyo Shoyu Ramen (16€), um caldo de frango servido com cachaço de porco, óleo de chalotas, cebolo, gengibre e ovo ajitama. Já pelas mãos de Natalie Castro, o Congee com Amêijoas e Coentros (19€) reforça a ponte luso-japonesa, juntando arroz, caldo de frango e a frescura salineira das amêijoas.
Ao fim de dez anos, o Miss Jappa mostra que não vive da nostalgia. Reinventa-se com a ajuda de chefs que conhecem o seu passado, mas que não têm medo de arriscar. A nova carta honra os clássicos, abre portas a novas leituras e reforça a ideia de que a cozinha japonesa, quando interpretada sem dogmas, pode ser divertida, ousada e memorável.

































