Água Hotels Terra Fria
Água Hotels Terra Fria

Há um novo hotel a quase mil metros de altitude em Trás-os-Montes – e não é apenas a piscina infinita virada para a serra que está a atrair visitantes. O Água Hotels Terra Fria, inaugurado a 1 de abril na aldeia de Pinela, às portas de Bragança, quer afirmar-se como uma porta de entrada para descobrir uma das regiões mais genuínas do país. 

Entre 25 e 27 de maio, o Vou Sair foi conhecê-lo. Durante três dias, mergulhámos na cultura, gastronomia e paisagens do Nordeste Transmontano. A experiência começou no hotel, mas rapidamente se estendeu a aldeias históricas, oficinas de artesãos, castelos, trilhos naturais e até um passeio de barco ecológico numa das mais belas albufeiras portuguesas.

Água Hotels Terra Fria

Um novo refúgio de montanha com piscina infinita e vista para a serra

Implantado numa encosta a cerca de mil metros de altitude, o Água Hotels Terra Fria foi desenhado para se fundir com a paisagem envolvente. Construído em declive e rodeado por montes e vales, privilegia a ligação entre arquitetura, natureza e bem-estar.

A primeira imagem que capta a atenção dos hóspedes é a piscina infinita exterior, suspensa sobre a encosta e orientada para a montanha. Mais do que uma piscina, funciona como um autêntico miradouro sobre a Terra Fria Transmontana.

Localizado a cerca de duas horas do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, o empreendimento ocupa um terreno com aproximadamente 15 hectares. Dispõe atualmente de 80 quartos distribuídos por cinco tipologias (standard, clássico, grande clássico, deluxe e suites), incluindo uma ala reservada exclusivamente a adultos. Durante o verão deverão abrir ainda quatro casas de montanha independentes, destinadas a famílias ou grupos.

O spa foi pensado para prolongar a sensação de tranquilidade. Conta com quatro salas de tratamento, piscina interior aquecida, sauna, banho turco, duche de sensações e ginásio aberto 24 horas por dia. Um dos pormenores mais apreciados pelos hóspedes adultos é o horário exclusivo da piscina interior entre as 20h00 e a meia-noite.

Como não poderia deixar de ser em Trás-os-Montes, a gastronomia assume um papel central na experiência. É no restaurante Alfenin que são servidos os pequenos-almoços, os snacks da piscina e os jantares à la carte. O bar mantém-se aberto até à meia-noite e disponibiliza petiscos, sanduíches, saladas e opções doces até às 18h00.

À frente da cozinha está o chef Francisco Rosa. Nascido em Angola, construiu grande parte da sua carreira em África e passou os últimos anos a liderar a abertura do Hotel Pestana CR7 Marraquexe. No Alfenin procura apresentar uma leitura contemporânea da gastronomia transmontana, valorizando os produtos locais sem perder de vista as raízes da região.

Durante a nossa estadia participámos num jantar de degustação que começou com um couvert composto por pão, pasta de azeitonas, azeite DOP transmontano e mel de urze e rosmaninho (7€). Seguiu-se a escalivada morna de bacalhau com pimentos assados, favas, azeitonas e alho sobre pão de centeio grelhado (29€), um dos pratos que o próprio chef identifica como uma das estrelas da carta. 

Depois chegou à mesa a barriga de leitão assada com pimenta preta e mel de citrinos, acompanhada por rodelas de batata frita (18€). Para terminar, provámos um crocante de canela com iogurte grego, pêssego em calda de flor de laranjeira, mirtilos e pistácios tostados (8€), uma sobremesa mais fresca para os meses quentes e que reflete algumas das influências adquiridas por Francisco Rosa durante a sua passagem por Marrocos. A refeição foi harmonizada com vinhos da Quinta de Arcossó, um dos produtores de referência da região.

Para os apreciadores de enoturismo, o hotel dispõe ainda de uma enoteca dedicada aos vinhos transmontanos, onde são promovidas provas comentadas e experiências vínicas.

Pinela e Podence: a tradição transmontana que o hotel quer dar a conhecer 

Erguido na pequena aldeia de Pinela, com menos de 230 habitantes, o hotel encontra-se numa posição privilegiada para explorar o Nordeste Transmontano.

A poucos minutos fica o Castelo de Pinela, situado a 964 metros de altitude. O local combina património arqueológico, paisagens serranas e lendas populares. Diz a tradição que os mouros ali esconderam tesouros guardados por mouras encantadas e que, nas noites de São João, ainda se ouvem sinos e lamentos vindos das rochas da antiga fortificação.

Hoje, o castelo é sobretudo procurado por caminhantes e amantes da natureza. O local revelou vestígios arqueológicos importantes, tendo sido identificado um espólio com cerca de 2.700 materiais.

Mas Pinela guarda outro património singular: as suas famosas cantarinhas de barro. Foi no Centro Interpretativo da Cerâmica, instalado numa antiga escola primária, que conhecemos Julieta Alves, de 73 anos, considerada a última oleira em atividade da aldeia. Continua a produzir manualmente as tradicionais cantarinhas, cântaros e alguidares que durante gerações fizeram parte do quotidiano transmontano.

Conta-se que antigamente os rapazes ofereciam estas pequenas peças de barro às raparigas solteiras durante as feiras locais. As jovens que recebiam mais cantarinhas eram consideradas as mais cobiçadas da aldeia. Hoje continuam a ser oferecidas como símbolo de afeto entre familiares e amigos.

A cerca de meia hora de distância fica Podence, a aldeia que levou os seus famosos caretos aos quatro cantos do mundo. O Entrudo Chocalheiro foi reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2019 e continua a ser uma das manifestações culturais mais emblemáticas da região.

Foi aqui que conhecemos Sofia Pombares, artesã de 27 anos dedicada à produção certificada dos fatos e máscaras dos caretos. Na sua loja-oficina, cada peça é feita do início ao fim pelas suas mãos, da tecelagem à costura, passando pela modelação e pintura das máscaras em couro ou latão.

Cada fato pode demorar até um mês a ser concluído e tem um preço médio de 900€. No total, Sofia produz entre 30 e 40 fatos por ano. Além dos fatos tradicionais, é possível adquirir máscaras feitas em couro ou metal (entre 30 a 50€), ímanes, cadernos e peças decorativas inspiradas nesta tradição secular.

Bragança e a castanha, o “petróleo” de Trás-os-Montes

A descoberta da região não estaria completa sem uma visita ao centro histórico de Bragança. Dentro das muralhas medievais da citadela encontram-se alguns dos principais símbolos da cidade: a Torre de Menagem, o Museu Militar, a Domus Municipalis, a Igreja de Santa Maria, o pelourinho e um conjunto de ruas que parecem saídas de um cenário medieval.

Merecem igualmente visita a Sé e a Igreja da Misericórdia, bem como a Rua dos Museus, oficialmente denominada Rua Abílio Beça, onde em apenas 500 metros se concentram cinco espaços museológicos.

A poucos minutos dali encontrámos outra protagonista da identidade local: a castanha. Na Marron – Oficina da Castanha, João Campos recebe visitantes num espaço que funciona simultaneamente como loja, museu e centro de degustação. Ali é possível descobrir mais de 100 produtos derivados do fruto que, segundo o proprietário, é o verdadeiro “petróleo de Trás-os-Montes”.

Licor de castanha, licor cremoso (apelidado de “Baileys transmontano”), cerveja, gin, compotas, chás, vinagres, gelados, bolos e até pastel de nata com castanha fazem parte da oferta, numa montra onde este fruto assume sempre o papel principal. Foi precisamente o licor de castanha o primeiro produto desenvolvido pela marca e continua, ainda hoje, a liderar as vendas.

Entre as especialidades destaca-se o Brigantino, um doce criado em 2018 que reinventa o conceito do pastel de nata com ingredientes emblemáticos da região: castanha, mel e azeite. Uma caixa de seis unidades tem o custo de 10,20€.

  • Brigantino
  • Licor de castanha

Navegar na Albufeira do Azibo sem deixar pegada

Um dia de verão merece uma visita à Albufeira do Azibo, Reserva da Biosfera da UNESCO e uma das áreas protegidas mais importantes do país. Com cerca de 400 hectares de superfície de água, é um destino privilegiado para caminhadas, observação da natureza e atividades ao ar livre.

Um dos percursos mais interessantes é o trilho circular Ricardo Magalhães, com 4,1 quilómetros de extensão e duração média de 1h20. Ao longo do percurso podem ser identificadas 43 espécies de borboletas e diversas aves de rapina.

Foi também aqui que embarcámos num passeio promovido pela Sun Azibo Cruzeiros. Operado pelos irmãos Ângela e Acácio Costa, o barco eletrossolar utilizado é silencioso, não produz emissões e constitui atualmente o único tipo de embarcação autorizado a navegar na albufeira. 

Durante o percurso observámos as Portas do Azibo, uma zona apenas acessível por água, a grande mancha de sobreiros da região, o chamado Sobreiro do Amor – onde os casais costumavam namorar – e a Ilha da Cabeça do Fidalgo, conhecida pela presença de javalis.

O passeio regular dura uma hora e custa 15€ por adulto. Existe também uma versão ao pôr do sol, com duas horas de duração, por 25€. Ambas incluem possibilidade de mergulho e uma tábua de petiscos com fruta, queijos, enchidos e espumante.

Pelo caminho surgem ainda duas das praias fluviais mais emblemáticas da região: a Praia Fluvial da Ribeira, distinguida como uma das 7 Maravilhas – Praias de Portugal, e a Praia Fluvial da Fraga da Pegada, detentora do maior número de Bandeiras Azuis consecutivas entre as praias fluviais europeias e reconhecida pelas excelentes condições para a prática de desportos náuticos.

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