Embarque nesta viagem à Jordânia com Nelson Vieira, um viajante, coletor de memórias, professor de Geografia e tem ainda as agências de viagens Q’Viagem Aveiro e Q’Viagem Gafanha da Nazaré.
Por Nelson Vieira
Desde há muito tempo que fazer uma viagem à Jordânia estava no meu horizonte. Sabia que iria encontrar marcos de uma história milenar, mas ao mesmo tempo algo familiar. É que faz parte do nosso imaginário cinematográfico ver Sir Lawrence da Arábia a atravessar o deserto deste país, a fim de servir de mediador entre árabes e ingleses, é-nos presente ver Indiana Jones, qual grande herói, a cavalgar por entre os desfiladeiros de Petra e, mais recentemente, ver Matt Damon a interpretar no deserto de Wadi Rum um astronauta perdido em Marte. Muitos outros filmes tiveram a Jordânia como cenário, mas desta vez porque não desempenhar o nosso próprio papel numa viagem a este país repleto de património.
A Jordânia fica ali, na encruzilhada entre 3 continentes, e foi essa localização entre a Ásia, Europa e África que tornou uma terra, de um modo geral, árida e muito pobre em recursos naturais, numa área de grandes rotas comerciais disputada por muitos povos ao longo da história, como os nabateus, otomanos, gregos, romanos, entre tantos outros. Será por essa influência de povos que temos, por exemplo, Petra, a capital dos nabateus, Jerash, a incrível cidade romana, ou mesmo Madaba, com os seus mosaicos bizantinos.
Em termos geográficos, a Jordânia é vizinha da Síria, a norte, de Israel e Palestina, a Oeste, do Iraque, a Nordeste, e da Arábia Saudita, a sudeste e leste.
A Jordânia está cada vez mais bem conectada com o mundo e são várias as companhias aéreas que fazem a ligação a este país, no entanto, desta vez e de forma a ter a experiência total, optei pela companhia de bandeira, a Royal Jordanian. Essa companhia não tem voos diretos de Lisboa, mas tem acordos com, por exemplo, a Ibéria, de forma a fazer a ligação via Madrid. Admito que tinha grandes expetativas relativamente à viagem com a Royal Jordanian, todavia, acho que precisa de rever alguns pontos, nomeadamente no que se refere a refeições. É que comer um taco mexicano na ida e um hambúrguer/cachorro na volta, não era propriamente o que esperaria, mas sim algo típico e que representasse um pouco da gastronomia do país. À parte disso, tem um serviço cordial e algo cuidado.
A entrada no país fez-se pelo Queen Alia Internacional Airport, uma estrutura moderna e que funciona de um modo geral bem. Quem não tratou do visto anteriormente, pode fazê-lo à chegada sem grandes dificuldades. O aeroporto fica a cerca de 30 km a sul da capital, Amman, distância essa que se percorre muito facilmente através de uma autoestrada moderna. A aproximação a Amman antecipa uma cidade muito monocromática, repleta de trânsito, mas que, salvo algumas horas do dia, flui com relativa facilidade. Para os turistas mais sensíveis conduzir ou ser conduzido na cidade pode significar algumas situações de nervosismo, mas vamos acreditar que faz parte da aventura…
A estadia nas duas primeiras noites da viagem fez-se em Amman, no Days Inn hotel Suites, uma unidade a precisar de alguma remodelação, mas algo simpática e a cerca de 10 minutos de carro do centro da cidade. A partir daí, consegue-se aceder facilmente a vários pontos de interesse da cidade como Rainbow Street ou Old Town. É aqui que a cidade fervilha, se sente toda a agitação dos comerciantes e dos compradores.


Amman e Jerash
Âncora lançada em Amman e feitos os primeiros reconhecimentos, rumemos a norte. O trajeto do segundo dia vai incluir Jerash e o castelo de Adjlun, da parte da manhã, e a cidade de Amman, da parte da tarde. Há que acordar cedo e fazermo-nos à estrada. Apesar de não ser uma viagem muito longa, há muito que visitar. Primeira paragem: Castelo de Adjlun, um castelo construído a cerca de 1200 metros de altitude numa das áreas mais verdes do país. Foi mandado erigir por um sobrinho do líder muçulmano, Saladino, em 1180 d.C. com o objetivo de proteger as minas de ferro aí existentes e da invasão dos cruzados. A sua posição estratégica permitia vigiar, por exemplo, os vales do Rio Jordão e o Mar da Galileia. Atualmente, o castelo é uma estrutura relativamente cuidada (com alguns erros de recuperação), mas está lá para rezar a história, imponente.
Seguimos viagem para Jerash, uma cidade com mais de 3000 anos de história e um dos mais importantes sítios arqueológicos romanos fora de Itália. Imaginemo-nos romanos e contemplemos o Arco de Adriano, em homenagem à visita do Imperador, o incrível hipódromo, onde víamos as corridas de bigas, e a praça oval com as suas 56 colunas. Há também que imaginar toda a agitação da época no Cardo Maximus, a principal avenida da cidade, ou a beleza de um espetáculo no Teatro romano. Dispamos a nossa toga, deixemos os cavalos e outros transportes da época e voltemos à atualidade. Temos que regressar a Amman em tempo útil. …afinal de contas são cerca de 45 minutos de estrada.


Eis-nos regressados a Amman. Mesmo com formação em Geografia e bastante orientado, Amman não permite uma orientação muito fácil, mas também é para isso que servem os GPS… A primeira paragem é na Cidadela, um lugar de extrema importância histórica com edifícios de vários períodos, como o romano e bizantino. Como principais construções temos o Templo de Hércules, uma Igreja bizantina e o Palácio dos Omíadas. É também a partir da Cidadela e da sua posição cimeira que conseguimos contemplar a imensidão da cidade de Amman com os seus cerca de 4 milhões de habitantes. Também aqui conseguimos ver a principal mesquita da cidade, bem como o anfiteatro romano para onde continuamos a visita. Esta construção, datada de 170 d.C. tinha capacidade até 6000 pessoas e está muito bem conservada. Visita obrigatória.

Estando já na parte “baixa” da cidade, aproveitemos e façamos umas compras. É que o anfiteatro está localizado junto às principais ruas comerciais da cidade e nela podemos comprar pão, legumes, fruta, utensílios de cozinha, mas também animais vivos ou um sem número de objetos. É, sem dúvida, uma das minhas partes favoritas das cidades. É aqui que se vê o movimento quotidiano dos seus habitantes, se vê as faces desgastadas dos comerciantes com muitos anos de trabalho, se vê as crianças na sua agitação habitual. É também por aqui que podemos comer o famoso doce típico do mundo árabe, a kunafeh (tem imensas formas de escrever, como knafe, kanafeh). Trata-se de uma base de queijo branco sem sal produzido a partir do leite de cabra ou ovelha com uma massa bastante fina, semelhante à nossa aletria. Tem depois algumas variantes, sendo que provei aquela que tinha pistachio por cima. Delicioso.
O dia já vai longo e há que regressar ao hotel para o descanso necessário.



Monte Nebo, Madaba e Pequena Petra
Eis que a Terra já girou mais 24 horas em volta do sol e há agora que seguir para sul. Os planos contemplam Monte Nebo, Madaba e Pequena Petra.
A primeira paragem é no Monte Nebo. Segundo a Bíblia foi aqui que Moisés viu a Terra Prometida, contemplando o vale do Rio Jordão, a cidade de Jericó ou mesmo Jerusalém. É também aqui que encontramos os restos de uma igreja construída na segunda metade do século IV em memória pela morte de Moisés. Seguimos para Madaba, uma pequena cidade que adquiriu o seu nome de um antigo local bíblico – Medba ou Medeba. É muito conhecida pelos seus mosaicos bizantinos e omíadas, principalmente um grande mosaico bizantino do século VI, conhecido como mapa de Madaba, e que representa a Terra Santa. Esta grande obra cobre parte do piso da igreja ortodoxa de São Jorge. Dado o meu interesse por Cartografia e Geografia, esta paragem apresentou-se como um ponto de especial importância.


Sem secundarizar todo o património visto até agora, quando se pensa numa viagem à Jordânia, é Petra que nos vem imediatamente à memória e é com a bússola orientada para aí que seguimos viagem, chegando primeiramente à Pequena Petra. …e, efetivamente, Pequena Petra é mesmo isso, pequena quando comparada com Petra, mas isolando disso não deixa de ser uma boa surpresa. Também conhecida por Sical Baride pensa-se ter sido construída no auge da influência dos Nabateus, durante o século I.
O dia foi intenso, o espírito está um pouco mais rico, mas o corpo exige paragem. Bem-vindos a Wadi Musa onde iremos pernoitar. A escolha recaiu sobre o Petra Sella hotel, uma unidade 4* simples, mas com conforto suficiente para 2 noites.
Petra
O sol nasceu para um novo dia e com ele a visita à mundialmente conhecida Petra. Berço dos nabateus e fundada há cerca de 2300 anos, é também intitulada de “cidade rosa”, “perdida”, “dos mortos” ou “das pedras”. E Petra é mesmo isso, esculpida nas pedras. Depois de passarmos a área de receção aos turistas com as suas lojas repletas de recordações e de fazermos uma pequena caminhada debaixo de um sol escaldante (aconselha-se roupa muito fresca, chapéu e muita hidratação), chegamos ao Siq. Trata-se de um sinuoso estreito de cerca de 1,5km, ladeado por rochedos de 80 metros de altura. É aí que começamos a ver pequenas esculturas feitas nas rochas e também um complexo sistema de canalização da água. É um trajeto muito agradável, onde a luz do sol incide nas rochas maioritariamente de cor rosa, mas também com outras tonalidades, tal é a sua constituição. É um trajeto bastante distrator e que nos permite ocupar a mente para o que se segue…a chegada ao “Tesouro”. Há muitos locais no mundo que sempre considerei de visita obrigatória e este era um deles.



Impressionante a obra que aqui se fez. Impressionante o quanto o homem tem de mau, mas também de bom ao construir uma obra destas. Simplesmente impressionante. Faz parte relaxar um pouco por aqui e contemplar esta grande escultura de 40 metros de altura, túmulo de um rei nabateu. Beba-se um chá calmamente para retemperar energia e sigamos a nossa caminhada. A partir daqui iremos encontrar um sem número de monumentos: o teatro (único no mundo que foi esculpido e não construído), as tumbas reais e a rua das colunas, por exemplo. Pelo caminho há que almoçar qualquer coisa num dos restaurantes, bastante simples, mas que servem uma refeição satisfatória.
Quem é muito exigente, garantidamente, terá alguma dificuldade em almoçar aqui. Petra ainda não acabou e ainda há muito a caminhar. De facto, os 2,5km a percorrer e o desnível de 800 degraus não se avizinham fáceis, mas valem todo o esforço. Lá em cima espera-nos o Mosteiro ou “Ad Deir”. Além disso e já que temos as pernas bem exercitadas, porque não subir mais um pouco, ir a um dos pontos de maior altitude e ter uma vista privilegiada de todo o complexo?

Para os menos preparados, os beduínos “oferecem” a possibilidade de fazer o trajeto de burro o que para mim é obrigatório recusar.
Não vale e pena comentar o regresso…respire fundo, hidrate e faça-se ao caminho. Nota importante: a perspetiva será obviamente diferente e irão descobrir-se novos pontos de interesse, por isso, o sol será bem menos quente, o caminho bem mais curto e as pernas, essas, bem mais fortes.
Já com Petra visitada e cravada na alma, pensei para comigo que seria praticamente impossível superar tal monumento no decorrer desta viagem e, efetivamente, foram precisos uns quilómetros valentes para sul para mudar um pouco a minha opinião. Chegado ao coração de Wadi Rum, aquela imensidão de areia e rochas avermelhadas e alaranjadas, leva-nos a viajar mais além. Se por um lado, Petra faz-me acreditar nas extraordinárias capacidades do Homem, aqui, por outro, é a natureza que nos “engole” e nos faz pensar que somos efetivamente muito insignificantes. Lamentavelmente, a maior parte da Humanidade não pensa dessa forma, mas isso são outras histórias…




A estadia em Wadi Rum foi no incrível Memories Aicha Luxury Camp, uma unidade constituída pelas tradicionais tendas, mas também por excelentes bungalows, maioritariamente envidraçados, como uma decoração entre o tradicional e o “kitsch”. Estando aqui alojado, significa dormir literalmente debaixo das estrelas e garanto que assistir aqui ao nascer do sol, estando deitado na cama, é uma experiência que aconselho vivamente. À parte disso, relaxe e esqueça o mundo…é que aqui não há rede de internet. O alojamento em Wadi Rum permite percorrer facilmente este belo deserto, fazendo algumas incursões pelas suas areias e pelos seus rochedos bastante elevados. Aconselho vivamente um passeio de 4×4 ao final da tarde de forma a apanhar o pôr-do-sol. Sente-se numa duna mais elevada, respire fundo e aproveite todo esplendor do astro-rei a desaparecer no horizonte. Agora que já estamos relaxados, façamos o caminho de volta. Há que reorientar a bússola e rumar a norte. Última paragem: Mar Morto.


Para quem aprecia e considera imprescindível fazer uns dias de praia, pode continuar pelo sul do país, em Aqba, mergulhando no belo Mar Vermelho, um destino de renome no que toca a mergulho. No meu caso, não é que não goste de praia, os dias de férias é que não me permitem tal extensão. Depois de bastantes quilómetros, chegámos ao Mar Morto. A base será o hotel Ramada Dead Sea 4*, uma unidade com qualidade suficiente para o pouco tempo aqui passado. Afinal o objetivo é mesmo mergulhar no Mar Morto. Bem, mergulhar não é propriamente a palavra mais correta. Tente aguentar algum tempo dentro da água escaldante do Mar Morto, rejuvenesça (assim o publicitam…), espalhando lama por todo o corpo, e desespere para a tirar posteriormente… Acima de tudo é fundamental que o hotel tenha uma bela piscina para que refresque um pouco. Contrarrelógio para o términus da viagem. Depois do descanso junto ao Mar Morto, resta-me uma viagem até Amman, na manhã do dia seguinte. A estrada vai-se fazendo e, com isso, um recuo mental da viagem por este belo país. Foi, sem margem para dúvidas, um cumprir de expetativas criadas e, em abono da verdade, algumas das vezes as expetativas foram grandemente superadas, como por exemplo em Petra ou Wadi Rum.
Desfaça-se de determinados mitos acerca deste país. É verdade que existem bastantes diferenças culturais, mas não é isso que faz com as viagens sejam mais memoráveis? Marque na agenda (nem que seja no longínquo ano de 2035…), mas vá. A Jordânia merece a sua visita.
Nelson Vieira é viajante, coletor de memórias, professor de Geografia e tem ainda as agências de viagens Q’Viagem Aveiro e Q’Viagem Gafanha da Nazaré.
































