Tomar o pequeno-almoço em casa, apanhar um avião, almoçar noutro país e regressar a tempo de dormir na própria cama. Parece uma forma pouco convencional de passar um dia de folga, mas há cada vez mais viajantes a fazê-lo.

Chama-se extreme day tripping e consiste, no fundo, em transformar uma viagem internacional numa escapadinha de apenas um dia. O objetivo é apanhar um dos primeiros voos da manhã, passar algumas horas no destino e regressar no último voo disponível, dispensando hotéis e, muitas vezes, viajando apenas com aquilo que cabe numa pequena mochila.

A tendência tem ganho dimensão em 2026, impulsionada sobretudo pelas redes sociais, pelos voos de curta distância e pela vontade de viajar sem gastar vários dias de férias. Segundo dados divulgados pela Expedia em abril, um em cada quatro viajantes norte-americanos das gerações Millennial e Z planeava fazer uma viagem internacional de apenas um dia este ano.

Na Europa, o fenómeno também tem vindo a ganhar seguidores. Dados da Kayak citados pela Forbes indicavam que as viagens internacionais de ida e volta no próprio dia tinham aumentado 62% face ao ano anterior.

Como funciona uma viagem internacional de apenas um dia?

A regra é bastante simples: não há noite fora. O viajante escolhe uma cidade relativamente próxima, procura uma combinação de voos que permita chegar cedo e regressar tarde e constrói o roteiro à volta das poucas horas disponíveis.

Na prática, significa sair de casa ainda de madrugada, passar pelo aeroporto sem bagagem de porão e ter um plano relativamente definido para aproveitar o destino assim que aterra. Ao final do dia, o percurso é feito ao contrário.

O fenómeno é particularmente popular no Reino Unido, onde a grande oferta de voos de baixo custo e a proximidade de várias cidades europeias tornam estas escapadinhas mais fáceis de organizar. Há até comunidades nas redes sociais dedicadas a partilhar preços, horários e roteiros para conseguir passar algumas horas noutro país.

A ideia também está relacionada com outra tendência que tem crescido entre os viajantes mais jovens: as microtrips. A Airbnb identificou as viagens internacionais curtas como uma das tendências de 2026, destacando a preferência da Geração Z por escapadinhas de poucos dias em vez de esperar pelas tradicionais férias prolongadas.

No TikTok, multiplicam-se precisamente os vídeos de viajantes que mostram tudo aquilo que conseguiram fazer durante 24, 48 ou 72 horas numa cidade estrangeira.

Porquê viajar tão depressa? Um dos principais argumentos é o tempo. Uma escapadinha de um dia pode ser feita durante um fim de semana ou num dia de folga sem obrigar a gastar vários dias de férias.

Também desaparece uma das despesas que mais pesa numa city break: o alojamento. Se for possível encontrar voos baratos, o orçamento fica praticamente reduzido aos transportes, refeições e atividades feitas durante o dia.

Há ainda quem encare estas viagens como uma espécie de primeiro encontro com um destino. Em vez de reservar quatro ou cinco noites numa cidade desconhecida, passa algumas horas por lá e decide depois se merece uma visita mais longa.

A contrapartida é evidente. Para fazer caber dois voos e uma visita a outra cidade em menos de 24 horas, é preciso aceitar madrugadas, muitas horas em transportes e pouco espaço para imprevistos.

A localização do aeroporto também pode fazer toda a diferença. Um voo barato perde parte do interesse se a viagem entre o aeroporto e o centro da cidade consumir duas horas em cada sentido.

E a partir de Portugal?

Para quem parte de Portugal, replicar os exemplos que se tornaram populares no Reino Unido pode ser mais complicado. A posição geográfica do país significa que grande parte das capitais europeias exige voos mais longos, pelo que os horários têm de encaixar especialmente bem.

Ainda assim, a Península Ibérica oferece possibilidades mais realistas. Madrid, Barcelona ou algumas cidades espanholas servidas por voos curtos podem, dependendo dos horários disponíveis num determinado dia, encaixar neste género de escapadinha.

O segredo está menos na distância em quilómetros e mais na combinação entre hora do primeiro voo, hora do último voo e tempo necessário para chegar do aeroporto ao centro.

Quem quiser experimentar deve também deixar alguma margem no roteiro. Um atraso no voo de ida pode reduzir significativamente as poucas horas disponíveis no destino, enquanto perder o voo de regresso transforma rapidamente uma viagem sem alojamento numa noite inesperada fora de casa.

A tendência também está a gerar críticas

Se viajar para outro país durante algumas horas pode parecer uma forma económica de conhecer mais destinos, há uma questão que tem acompanhado o crescimento do extreme day tripping: o impacto ambiental.

O debate intensificou-se este ano à medida que a tendência ganhou visibilidade. A Skift chamou a atenção para o contraste entre este tipo de viagem e os compromissos de sustentabilidade assumidos pelo setor turístico. Um voo de ida e volta produz as mesmas emissões independentemente de o passageiro permanecer no destino algumas horas ou uma semana, enquanto uma estadia mais longa distribui esse impacto por mais dias.

Há também uma questão económica. Um visitante que não dorme no destino não gasta dinheiro em alojamento e tende a ter menos tempo para consumir em restaurantes, comércio e atrações do que alguém que permanece vários dias.

O extreme day tripping acaba, assim, por representar praticamente o oposto do slow travel. Em vez de passar vários dias a conhecer um destino com calma, comprime uma viagem inteira em algumas horas.

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