Há sobremesas que justificam guardar um bocadinho de espaço no final da refeição. No Erva, em Lisboa, encontrámos uma delas: uma baba de camelo com flor de sal de Aveiro e avelã, suficientemente gulosa para nos fazer esquecer que já tínhamos passado por duas entradas e dois pratos principais. Mas seria injusto começar e acabar a história na sobremesa. Antes dela, houve bacalhau crocante com maionese de tinta de choco, polvo do Algarve com açorda e uma presa de porco preto que também merece ser recordada.
Fomos conhecer a carta de primavera do restaurante, assinada pelo chef João Moreira, que continua a explorar a cozinha portuguesa através de combinações contemporâneas, ingredientes nacionais e referências aos sabores tradicionais.
O Erva fica na Avenida Columbano Bordalo Pinheiro, integrado no hotel Corinthia Lisbon, mas tem uma identidade própria e está aberto a quem procura um restaurante na cidade. A sala combina vegetação, peças de arte, uma cozinha aberta e um forno a lenha, elemento importante na preparação de vários pratos.


A carta de João Moreira parte de ingredientes familiares, mas trabalha-os com técnicas, texturas e acompanhamentos que lhes dão outra expressão. Foi precisamente isso que encontrámos nos cinco pratos que experimentámos.
A refeição começou com o couvert (4€ por pessoa), composto por azeitonas temperadas, manteiga de cabra do Pico fumada, pão de malte e broa do Minho. Uma seleção que antecipa a importância dos produtos portugueses na proposta do restaurante.
Seguiram-se as entradas, e foi aqui que surgiu um dos grandes destaques da noite. O bacalhau crocante com maionese de choco e lima (15€) chega à mesa em três pedaços dourados, acompanhados por uma pequena taça de maionese escura. A apresentação faz lembrar o choco frito, mas o protagonista é o bacalhau, envolvido numa massa fina e estaladiça, que contrasta com a textura delicada do peixe.
A maionese, preparada com tinta de choco, acrescenta intensidade e uma componente cítrica graças à lima. Foi uma entrada de que gostámos particularmente, tanto pela combinação de sabores como pelo contraste de texturas.
A segunda escolha foi a raia corada com manteiga de alho e algas (14€). O peixe é servido sobre um molho amanteigado, com pequenas lâminas de alho tostado. A raia apresenta uma superfície dourada e uma textura delicada, enquanto a manteiga de alho acrescenta intensidade ao conjunto. As algas introduzem uma nota marítima que acompanha o sabor do peixe, sem o esconder.


Do polvo com açorda à baba de camelo que nos conquistou
Nos pratos principais, continuámos pelo mar com o polvo do Algarve, acompanhado de açorda, coentros e gema de ovo (27€). O prato chega com um tentáculo generoso disposto à volta de uma açorda de aspeto cremoso. A gema acrescenta untuosidade, enquanto os coentros trazem frescura a uma combinação profundamente ligada à cozinha portuguesa.
Foi um dos nossos favoritos. O polvo estava tenro, com uma superfície ligeiramente tostada, e a açorda revelou-se um acompanhamento particularmente bem conseguido. A mistura dos diferentes elementos resulta num prato reconfortante, mas com uma apresentação cuidada.
Para a segunda escolha, passámos à carne com a presa de porco preto alentejano, espargos, couve, cuscuz transmontanos e pêssego (25€).
A carne chega fatiada, com um interior rosado, acompanhada pelos espargos e pela couve, enquanto os cuscuz surgem numa preparação cremosa. Pequenos apontamentos de pêssego acrescentam uma nota frutada ao prato.
O que mais nos agradou foi precisamente o jogo de texturas: a suculência da carne, os legumes, os cuscuz e a frescura do pêssego criam uma combinação equilibrada, em que cada elemento tem o seu papel.
A carta inclui ainda outras propostas, como peixe-galo com puré de aipo, espargos e molho de manteiga (31€), couve-flor grelhada com amêndoa e molho de ervas (21€) ou xerém de milho com cogumelos grelhados, bimis e queijo da ilha (23€).


Para acompanhar a refeição, experimentámos ainda dois cocktails (17€ cada), ambos construídos a partir de sabores portugueses. O Monchique combina aguardente de medronho e Licor Beirão com cordial de toranja e laranja, agave, limão e aquafaba, resultando num cocktail cítrico, frutado e herbal, com uma textura aveludada. Já o Ribeira parte do vinho do Porto branco infusionado com tomilho, ao qual junta vermute branco, canela, lima, maçã verde e aquafaba. É uma combinação mais aromática e especiada, onde a frescura da maçã e da lima contrasta com as notas quentes da canela.
Mas faltava a sobremesa e foi precisamente aí que o jantar terminou com uma das melhores surpresas. Escolhemos a baba de camelo com flor de sal de Aveiro e avelã (8,50€), uma versão de um clássico português que chega à mesa numa taça generosa, perfeita para partilhar.
A textura é cremosa e a doçura do caramelo encontra equilíbrio na flor de sal, enquanto a avelã acrescenta uma dimensão tostada e alguma textura. A combinação funciona tão bem que, entre todas as versões desta sobremesa que já provámos, esta passou diretamente para o primeiro lugar.
É uma daquelas sobremesas que nos fazem querer voltar ao restaurante, mesmo depois de uma refeição em que as entradas e os pratos principais já tinham deixado uma excelente impressão.
Para quem quiser conhecer o Erva, o restaurante está aberto diariamente, das 12 horas às 00h30, com a cozinha a funcionar até às 23 horas.


































