Há restaurantes onde vamos jantar. E depois há lugares onde, durante algumas horas, deixamos verdadeiramente de sentir que estamos em Portugal. Foi exatamente isso que aconteceu na Casa Nepalesa, em Lisboa, durante o primeiro jantar do ciclo solidário “Viagem ao Nepal”, criado pelo chef Tanka Sapkota para celebrar os seus 30 anos em Portugal.
Mas chamar-lhe apenas “jantar” talvez seja redutor. O que ali aconteceu foi mais próximo de uma experiência cultural, emocional e profundamente humana, construída através da comida, da música, da dança e das histórias de vida de quem passou décadas entre dois países sem nunca esquecer as suas raízes.
Assim que entramos na sala, a sensação é imediata. A decoração tradicional, os tecidos coloridos, os aromas intensos das especiarias e o som dos instrumentos nepaleses criam um ambiente quase cinematográfico. À nossa volta, os funcionários usam roupas típicas e falam entre si em nepalês, enquanto, sobre um balcão, algumas especiarias estão cuidadosamente expostas com uma pequena indicação: “estes ingredientes vêm diretamente da terra natal do chef Tanka”.
E sente-se mesmo isso ao longo de toda a noite. Não parece um restaurante a tentar recriar artificialmente um país distante. Parece antes um pedaço genuíno do Nepal transportado para Lisboa.
O jantar faz parte de um ciclo mensal que decorre sempre na primeira quarta-feira de cada mês até maio de 2027, com uma pausa durante o verão. Mais do que celebrar a gastronomia nepalesa, o projeto nasce de um sentimento profundo de gratidão do chef Tanka Sapkota para com Portugal e o acolhimento que recebeu desde que chegou ao país, em 1996, com apenas 22 anos. O jantar tem um valor de 50€ por pessoa e os lugares são limitados.



Ao longo da noite, Tanka Sapkota fala várias vezes aos convidados. Apresenta membros da família, funcionários, artistas e representantes da comunidade nepalesa. Fala da chegada a Portugal, das dificuldades dos primeiros anos, do acolhimento que recebeu e da tristeza que sente quando vê a comunidade nepalesa reduzida a estereótipos ligados apenas ao trabalho duro ou à imigração.
“Portugal não é apenas a minha terra de trabalho. É a minha segunda casa”, escreveu o chef numa carta entregue no final do jantar a todos os presentes.
Toda a faturação dos jantares reverte integralmente para as Aldeias de Crianças SOS Portugal e para a SOS Children’s Villages Nepal, numa divisão de 50% para cada instituição. A ideia é transformar esta celebração cultural numa forma concreta de ajudar crianças em situação vulnerável, tanto em Portugal como no Nepal.
Enquanto os discursos se cruzam com atuações tradicionais nepalesas, a experiência gastronómica vai chegando à mesa de forma quase narrativa, como se cada prato representasse uma região, uma memória ou um momento específico da vida do chef.
O jantar começa com o Himalayan Whisper, um cocktail que junta vinho do Porto e rum nepalês envelhecido, equilibrado com água tónica e especiarias das montanhas dos Himalaias. Aromático e fresco, funciona como introdução perfeita para tudo o que vem a seguir.
Nas entradas, chegam as tarkari ko singada, samosas de legumes delicadamente crocantes e muito leves, com um recheio aromático onde as especiarias surgem de forma equilibrada, sem nunca se tornarem pesadas.
É o momo ra bakhra ko maasu ko jhol que realmente marca o início da viagem. A massa fina de trigo recheada com porco preto de bolota, frango do campo e especiarias é servida com um caldo intenso de cabrito, ligeiramente perfumado com sinki, um espinafre selvagem típico das montanhas nepalesas. Há profundidade, calor e uma sensação de conforto difícil de explicar. É um daqueles pratos que parece contar uma história enquanto o comemos.



Ao contrário de muitos restaurantes nepaleses mais adaptados ao paladar europeu, aqui os sabores surgem mais puros, mais complexos e muito mais ligados à tradição familiar do chef. Isso sente-se especialmente nos pratos principais.
O jimmu le jhaneko dal, um guisado de lentilhas com gengibre, coentros e óleo de mostarda, revela uma cozinha profundamente reconfortante, onde a simplicidade aparente esconde camadas de sabor construídas lentamente. O bhale ra katus, preparado com frango do campo, avelãs e especiarias moídas à mão, traz uma combinação surpreendente entre notas tostadas, textura cremosa e um calor subtil das especiarias.
Já o tama ra bodi bio, feito com rebentos de bambu biológicos vindos diretamente da aldeia natal do chef e feijão-verde longo, é provavelmente um dos pratos mais diferentes da noite. Há acidez, frescura e um lado quase terroso que torna tudo muito mais interessante do que esperávamos.
O masaledar bakhra ko masu, preparado com cabrito DOP de Trás-os-Montes cozinhado lentamente em lume brando, fecha os pratos principais com intensidade e profundidade. A carne chega extremamente tenra, envolvida num molho rico em especiarias nepalesas, mas sempre equilibrado e elegante.

Tudo é acompanhado por arroz basmati, roti acabado de fazer e um chutney de sementes de cânhamo cheio de personalidade. Os vinhos escolhidos para harmonizar o jantar incluíram o Quinta da Leda tinto, do Douro.
A sobremesa, chamada triveni, surge quase como uma metáfora da própria noite. Manga cremosa transportada do Nepal, bolacha crocante de coco, creme de frutos secos, lascas de chocolate e chips de bambu juntam-se numa criação dedicada “à união inabalável das montanhas, colinas e planícies” do Nepal.
Mas talvez o mais bonito deste jantar tenha acontecido fora dos pratos. Entre atuações de dança tradicional, música ao vivo e vídeos sobre diferentes regiões nepalesas, houve um momento em que os convidados deixaram simplesmente de ser espectadores. No final da noite, muitos acabaram no palco a dançar com os artistas, num ambiente de celebração genuína onde já ninguém parecia estar em Lisboa.
A Casa Nepalesa não criou apenas um menu temático. Criou uma forma de aproximar culturas, desmontar preconceitos e mostrar um Nepal muito mais complexo, caloroso e rico do que muitos imaginam.



































