Com mais de 3 milhões de habitantes na área metropolitana, Nápoles é uma das maiores cidades italianas e uma das mais densamente habitadas da Europa. Entre o mar Tirreno e o Vesúvio, cresceu como um centro urbano intenso, marcado por um movimento constante que atravessa séculos de história e se reflete no quotidiano. Durante três dias, entre 14 e 16 de novembro, percorremos a cidade para observar esse ritmo de perto. À chegada, ainda antes de termos uma leitura clara da cidade, seguimos diretamente para a marginal, em direção ao Eurostars Hotel Excelsior, ponto de partida para descobrir a capital da Campânia.

O hotel impõe-se, desde logo, pela localização. De frente para o mar e com o Castel dell’Ovo mesmo em frente, oferece uma das vistas mais emblemáticas do Golfo de Nápoles. Antes mesmo de explorarmos a cidade, subimos ao terraço para um primeiro copo. À nossa frente, o Vesúvio desenhava o horizonte, com Capri, Sorrento e a linha da costa a completar o cenário. Foi ali, ainda sem sair do hotel, que Nápoles começou a revelar-se.

Castel dell’Ovo

Construído entre 1906 e 1908, o Excelsior atravessou guerras, transformações e décadas de história. Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, funcionou como hospital militar e, apesar dos bombardeamentos de 1943, manteve-se como um espaço central da vida cultural da cidade. Hoje, conserva essa herança nos detalhes arquitetónicos.

Ao longo do século XX, tornou-se ponto de passagem de figuras incontornáveis da cultura e da realeza europeia. Por aqui passaram nomes como Alfred Hitchcock, Sophia Loren e Grace Kelly, além de várias casas reais. A suíte presidencial, onde já dormiram Jennifer Lopez, Britney Spears e o rei Juan Carlos de Espanha, mantém grande parte da mobília original das décadas de 1920 e 1930. Durante a nossa estadia, o hotel estava novamente em modo cinema: decorriam as gravações de um filme italiano sobre o cantor Gigi D’Alessio. Contaram-nos que neste hotel gravam-se cerca de 10 filmes por ano.

Fizemos uma visita guiada com Gianni Ricci, diretor do hotel, cuja ligação ao Excelsior é profundamente pessoal. Os pais trabalharam aqui e o próprio nasceu no hotel, num episódio que diz muito sobre a relação entre Gianni e este edifício. Apesar do hotel ter mais de 100 anos, as obras de renovação são contínuas, a última grande intervenção aconteceu há cerca de três anos, sempre com o cuidado de preservar a identidade original.

O almoço aconteceu no hotel, como primeiro contacto com a cozinha local. À mesa chegaram uma massa al ragù, seguida de corvina com puré de abóbora, e o clássico babà com rum para terminar. Só depois saímos finalmente para a rua. Vale destacar que o hotel fica a 10 minutos do centro da cidade.

A tarde levou-nos ao Quartieri Spagnoli (Bairro Espanhol), um dos bairros mais intensos e autênticos de Nápoles. Criado no século XVI para alojar tropas espanholas, é hoje um labirinto de ruas estreitas onde a vida acontece à escala humana. A roupa estende-se entre prédios, as conversas atravessam janelas, os cafés enchem-se a meio da tarde e os pequenos negócios convivem com murais gigantes. Maradona está por todo o lado – em retratos, velas, camisolas e altares improvisados – não como atração turística, mas como símbolo vivo de identidade e pertença. Aqui, Nápoles não se encena: vive-se.

Jantámos no restaurante Antonio Antonio, junto ao mar. À mesa chegaram várias entradas de fritos – uma espécie de fritti misti – que acabariam por se repetir ao longo da viagem, sempre como ponto de partida das refeições. Houve também pizzas para partilhar, incluindo uma de batata, simples e surpreendentemente leve, antes de passarmos para uma massa com peixe. Os preços rondavam os 20/30€ por pessoa.

O segundo dia começou com um tour pela cidade, guiado por Maria Laura, e confirmou rapidamente aquilo que Nápoles faz questão de mostrar sem filtros: é uma cidade viva, ruidosa, excessiva e profundamente intensa. Aqui, tudo acontece ao mesmo tempo. As ruas estão sempre cheias as conversas sobrepõem-se e o caos transforma-se numa espécie de coreografia informal que, apesar de tudo, funciona.

A história surge quase como pano de fundo dessa energia constante. Fundada pelos gregos, primeiro como Partenope e depois como Neápolis, a cidade cresceu entre o mar e o vulcão, dois elementos que continuam a marcar o seu caráter. O Vesúvio, cuja última erupção aconteceu nos anos 1940, está sempre presente no horizonte e na consciência coletiva. A energia vulcânica sente-se menos como ameaça e mais como parte da identidade napolitana: imprevisível, intensa, indomável.

O passeio passou pela marginal e pela zona histórica, com a Via Toledo a funcionar como eixo central entre a cidade antiga e a mais recente. É aqui que se percebe melhor o contraste entre grandiosidade e vida quotidiana: palácios, igrejas e teatros convivem com cafés cheios, lojas pequenas e uma azáfama permanente.

Na Piazza del Plebiscito, o Palácio Real impõe-se pelo tamanho e pela importância histórica. Ali ao lado, o Teatro di San Carlo, um dos mais antigos teatros de ópera da Europa ainda em funcionamento, lembra o peso cultural que Nápoles sempre teve. Mas Nápoles explica-se melhor nos detalhes. No café Gambrinus, histórico ponto de encontro da cidade, nas vitrinas cheias de sfogliatelle acabadas de sair do forno, no doce sabor cítrico da delizia al limone, ou nos pequenos símbolos vermelhos que surgem por todo o lado: não são pimentas nem cornos, mas antigos símbolos pagãos usados para afastar o mau-olhado.

A religiosidade é outro elemento omnipresente, misturada com futebol, superstição e identidade local. A cidade tem dezenas de santos, mas Maradona ocupa um lugar próprio, quase sagrado. Em Nápoles, o futebol não é apenas um desporto: é uma extensão da fé.

A visita à zona dos Decumani levou-nos à caótica e vibrante Via San Gregorio Armeno, conhecida como a rua dos presépios. Mal se consegue andar entre turistas, moradores e artesãos, mas é precisamente essa confusão que define o espaço. As oficinas produzem figuras tradicionais e contemporâneas, misturando religião, sátira e cultura popular. Foi aqui que visitámos a histórica oficina de Di Virgilio, ativa desde 1830, onde cada peça é feita à mão e retrata personagens icónicas da cidade – políticos, artistas, futebolistas – transformando o presépio num espelho muito particular da sociedade napolitana.

O almoço aconteceu perto da Via San Gregorio Armeno, na Locanda del Grifo. Experimentámos pizza simples e bem feita, entre os 10 e os 15 euros, não podíamos sair de Napóles sem experimentar a clássica pizza frita – uma espécie de calzone frita por fora.

A tarde foi passada sem roteiro definido, entre lojas, pequenas oficinas e ruas sempre cheias, num exercício simples de observar e acompanhar o ritmo da cidade. Nápoles tem um comércio intenso e muito presente no quotidiano: mercados improvisados, lojas antigas lado a lado com negócios recentes, bancas de rua e cafés sempre ocupados. Não é uma cidade que impressione pela monumentalidade cuidada de outras cidades italianas, mas é profundamente autêntica. Aqui percebe-se, a cada esquina, que a cidade é vivida antes de ser mostrada.

Jantámos no Scialuppa, um restaurante a 5 minutos do hotel, numa espécie de doca. À mesa chegaram ameijoas muito semelhantes às ameijoas à Bulhão Pato (24€), seguidas de um risotto de frutos do mar (25€), cremoso e bem executado. Terminámos com um tiramisù clássico, simples e certeiro. Ao longo da viagem, ficou clara uma ideia: apesar da fama da pizza, a cozinha napolitana é profundamente marcada pelo mar. Peixe e marisco surgem de forma consistente nos menus e fazem parte do quotidiano, com uma frescura e simplicidade que definem o caráter gastronómico da cidade.

Ao final do dia, regressámos ao Eurostars Excelsior, onde o quarto acabou por ser também parte da experiência. Com tetos altos, mobiliário clássico bem preservado e uma elegância que remete para outros tempos, o espaço fez-nos sentir num cenário de realeza. As duas varandas, abertas sobre o mar, transformavam completamente a perceção do quarto: acordar e adormecer com o Golfo de Nápoles à frente dava-lhe uma dimensão quase cinematográfica. Nada ali parecia excessivo ou datado, antes cuidadosamente mantido, como se o hotel soubesse exatamente onde termina a nostalgia e começa o conforto.

O pequeno-almoço seguia a mesma lógica. Servido numa sala ampla, com detalhes arquitetónicos históricos, era variado e atento, com especial destaque para os doces típicos da região – croissants e outras especialidades locais – acompanhados por um serviço cuidado e tranquilo, que contrastava com a intensidade da cidade lá fora.

No dia seguinte, saímos de Nápoles em direção a Pompeia, um dos momentos mais aguardados da viagem. Caminhar pelas ruas de uma cidade congelada no tempo, preservada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., é sempre impressionante: as casas, os frescos e os vestígios do quotidiano revelam uma proximidade rara com a vida romana. Confesso que ia com a ideia (errada) de que iríamos ver corpos preservados, quando na verdade o que existe são moldes em gesso, criados a partir dos vazios deixados pelas vítimas da erupção do Vesúvio.

Pompeia é enorme e duas horas e meia revelaram-se insuficientes para ver tudo com calma: há ruas inteiras, casas, termas e teatros que pedem tempo e contexto. Por isso, a recomendação é clara, fazer a visita com guia, idealmente reservando pelo menos 3 a 4 horas, para conseguir perceber melhor o que se está a ver e orientar-se dentro do sítio arqueológico. A partir de Nápoles, é possível chegar a Pompeia de transfer (serviço que muitos hotéis, incluindo o nosso, disponibilizam), mas também de comboio, numa ligação direta e bastante simples. Quanto aos bilhetes, os preços variam consoante o tipo de visita: à data, o bilhete simples para Pompeia custava cerca de 18€, enquanto opções mais completas, que incluem vilas suburbanas ou vários dias, rondavam os 22€ a 26€, com reduções para estudantes e entradas gratuitas para crianças. Comprar online pode facilitar o processo e evitar filas, sobretudo em épocas mais concorridas.

O almoço foi no Locanda del Cerriglio, uma das refeições mais memoráveis da viagem e, sem dúvida, a minha favorita. Começámos com uma generosa tábua de queijos e enchidos (28€), pensada para partilhar, seguida de uma parmegiana de beringela (10€). Para prato principal, escolhi o baby gnocchi com lula (24€), delicado e intenso ao mesmo tempo, um prato que resume bem a relação natural que Nápoles tem com o mar.

No nosso último dia em Nápoles, houve ainda tempo para subir ao funicular e admirar a vista do miradouro, de onde a cidade se revela em toda a sua complexidade. Nápoles não procura agradar nem se molda a quem chega. É uma cidade imperfeita, excessiva e profundamente habitada, onde a história, a fé, o futebol e a comida convivem sem hierarquias claras. Ao longo da viagem, tornou-se evidente que o seu maior valor não está nos grandes monumentos ou na harmonia urbana, mas na forma como a vida acontece: ruidosa, contínua e sem encenação. É essa autenticidade, difícil de definir mas impossível de ignorar, que permanece depois de partir.

Como chegar?

Para quem parte de Portugal, chegar a Nápoles é hoje bastante direto. A cidade é servida pelo Aeroporto Internacional de Nápoles (NAP), para onde há voos sem escalas desde Lisboa, com um tempo de voo de cerca de 3h10. As companhias que operam esta ligação direta incluem a Ryanair e a TAP.

*A jornalista viajou a convite da Eurostars



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