1904 Benfica Hotel
1904 Benfica Hotel

Por vezes é preciso pensar muito para chegar a um conceito hoteleiro: procurar inspiração na localização, no passado do edifício ou na cidade que o envolve. Outras vezes, a ideia impõe-se com naturalidade. No caso do 1904 Benfica Hotel, o ponto de partida foi claro: a recriação de um hotel dos anos 20, quando o futebol estava no auge, e a ligação histórica do edifício ao Bristol Club e ao Benfica.

Localizado Largo do Regedor, em Lisboa, o hotel nasce de um concurso lançado há cerca de dois anos e meio pela CBRE. “Curiosamente, nós nem sabíamos que o concurso estava a decorrer. Estávamos numa reunião com eles sobre outra coisa completamente diferente”, conta António Quintão, CEO da Feels Like Home (FLH Hotels), empresa que opera o hotel, que, por sua vez, é propriedade da Fundação Benfica. “Concorremos, ganhámos. Já tínhamos seis hotéis a funcionar na Baixa, todos muito pequenos, mas este seria diferente.”

E é mesmo. Embora a FLH Hotels tenha começado há 12 anos na gestão de alojamento local — hoje soma cerca de 650 apartamentos e hotéis em Lisboa, Porto, Coimbra e Ericeira — o 1904 Benfica Hotel marca um novo capítulo. “Este é o nosso 12.º hotel em operação e é, claramente, um hotel diferente.”

O edifício apresenta duas entradas distintas: uma conduz diretamente ao lobby do hotel; a outra dá acesso ao Café de São Bento. Logo à chegada, a decoração transporta-nos para os anos 20: madeiras quentes, chão axadrezado, uma elegância clássica e intemporal. Até o painel do artista Vhils, com o retrato de Cosme Damião, fundador do Benfica, se integra com naturalidade no espaço, sem ruído visual, sem excessos.

As referências ao Benfica estão presentes, mas de forma subtil. Estão na paleta cromática, em pequenos objetos, em detalhes que se vão descobrindo ao longo da visita. Nada é extravagante ou intrusivo — é o suficiente para se fazer notar, sem nunca se impor.

O Café de São Bento revela-se um verdadeiro casamento perfeito com o hotel. Com uma decoração semelhante, parecem terem sido feitos um para o outro. Entra-se pela porta contígua à do hotel e percorre-se um corredor paralelo à receção e ao lobby. Nesse percurso, surgem fotografias que contam a história do Café de São Bento, mas também de outros cafés históricos de Lisboa, como o Café Chiado, o Café Marrare e o Bristol Club, que ocupou este edifício entre 1919 e 1929.

Depois da cortina de veludo, um dos símbolos do Café de São Bento, sobe-se até ao primeiro piso, onde se encontram o próprio café e o bar Clube 1904, num espaço que prolonga esta narrativa de clube urbano, boémio e cheio de história.

Café São Bento

À entrada dos 56 quartos, distribuídos por cinco pisos, surgem nichos dedicados a figuras marcantes do Benfica, com equipamentos autografados e pequenos textos explicativos. Os espaços dedicados a Eusébio e a Cosme Damião permanecerão de forma permanente. Os restantes serão rotativos. Para já, estão em exibição camisolas de nomes como Mozer, Óscar Cardozo ou Rui Costa.

Muitos destes conteúdos nasceram de uma colaboração próxima com o Museu do Benfica, como a réplica do bilhete de identidade de Cosme Damião. “Nós tínhamos as ideias; eles deram o conteúdo. Casámos perfeitamente. Eles estão felizes e nós também.”

Já nos quartos, a opção foi clara: neutralidade. Não há referências diretas ao clube. O conforto é contemporâneo, com linhas retro, armários embutidos sempre que possível e produtos naturais da Oliofra nas casas de banho — estas, sim, com um toque inesperado de vermelho.

Clube 1904

O bar Clube 1904 assume-se como o centro social do hotel. A inspiração vem de um pub inglês do início do século, com glamour e camadas de história. Não é um sports bar tradicional, mas um espaço onde a história do Benfica se percorre através de fotografias, documentos e QR codes que revelam narrativas menos óbvias. Aberto todo o dia até à uma da manhã e operado pelo Café de São Bento, será também palco para a transmissão de jogos.

A Sala Eusébio, antigo salão de baile do Bristol Club, completa a experiência. Hoje funciona como espaço versátil para eventos, reuniões ou pausas tranquilas. A cúpula, as janelas ocultas e a estrutura em ferro denunciam um edifício que foi vanguardista no passado e continua a sê-lo.

No final da visita, a sensação é clara: este não é um hotel apenas para adeptos de futebol. É um hotel-clube, um exercício de memória e identidade lisboeta, onde se dorme rodeado de histórias, e onde o Benfica é o fio condutor, nunca o destino final.

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