Durante anos, o mar foi visto como um dos cenários ideais para desligar da rotina. O som das ondas, os mergulhos e os longos passeios pela praia fazem parte daquilo a que se convencionou chamar blue therapy, a procura de espaços junto à água como forma de promover o descanso e o bem-estar.
Em 2026, porém, há uma nova cor a entrar no vocabulário das viagens: bege.
A chamada beige therapy está a transformar os desertos em destinos de bem-estar, trocando o azul do oceano por quilómetros de areia, silêncio, horizontes praticamente infinitos e noites suficientemente escuras para observar as estrelas.
A tendência foi identificada pela Condé Nast Traveller entre as principais tendências de wellness travel de 2026. A ideia parte das características que tornam estes territórios tão diferentes dos destinos onde passamos habitualmente as férias: há menos ruído, menos estímulos visuais, muito espaço e um ritmo naturalmente mais lento.
Afinal, o que é a beige therapy?
Ao contrário de outras tendências de bem-estar associadas a tratamentos de spa ou tecnologias sofisticadas, aqui a própria paisagem é uma parte essencial da experiência.
O silêncio, a imensidão e os céus escuros dos desertos estão a ser aproveitados para criar viagens em torno de atividades como meditação, caminhadas, observação de estrelas e rituais ligados às culturas locais.
Tom Marchant, cofundador da agência de viagens Black Tomato, explica à Condé Nast Traveller que o bem-estar no deserto assenta precisamente em ritmos simples, que podem passar por uma caminhada ao amanhecer, uma pausa à sombra durante as horas de maior calor e momentos de contemplação sob as estrelas.
O conceito não significa que os hotéis no deserto sejam propriamente uma novidade. Destinos como o sudoeste dos Estados Unidos ou várias regiões do Norte de África recebem há décadas viajantes à procura de sol, spas e paisagens diferentes.
O que está a mudar é a forma como o deserto é apresentado e vivido. Uma análise publicada, esta quarta-feira, pela Hospitality Net destaca precisamente esta mudança: em vez de a paisagem funcionar apenas como pano de fundo para um resort, características como o silêncio, a escuridão, a dimensão do espaço e a ligação à natureza passam a fazer parte da própria experiência de bem-estar.
Do Atacama ao Saara

Já existem viagens construídas em torno desta ideia. No deserto do Atacama, no Chile, por exemplo, foram desenvolvidos itinerários que combinam águas termais ricas em minerais, cerimónias tradicionais e observação da Via Láctea num dos lugares do planeta conhecidos pelas condições privilegiadas para olhar para o céu noturno.
No Saara marroquino, a proposta pode passar por caminhadas meditativas por oásis e rituais de chá de menta.
Também nos Estados Unidos começam a surgir projetos pensados em torno deste tipo de turismo. Junto ao Joshua Tree National Park, na Califórnia, abriu este ano o Reset Hotel, uma unidade com 65 quartos inserida numa propriedade com cerca de 73 hectares de deserto. Entre as atividades estão sessões de respiração e aulas de ioga.
A tendência deverá continuar a crescer. Na Índia, a cadeia de luxo Leela prepara também um resort e spa em Jaisalmer, no Rajastão, uma cidade conhecida pela proximidade ao deserto de Thar.
Depois do blue, o beige
A beige therapy surge numa altura em que as viagens dedicadas ao bem-estar estão a afastar-se da ideia tradicional de passar alguns dias fechado num spa.
A própria Condé Nast Traveller identifica para 2026 uma procura crescente por experiências ligadas à natureza, espiritualidade e contemplação, incluindo outra tendência chamada star bathing, que consiste essencialmente em passar tempo a observar o céu noturno como uma experiência de desconexão.
No caso dos desertos, vários destes elementos encontram-se no mesmo lugar. Há pouca poluição luminosa, grandes áreas praticamente vazias, silêncio e uma paisagem onde não é difícil afastar-se dos estímulos constantes das cidades.
É precisamente essa ausência de coisas para fazer e ver a toda a hora que começa a ser vendida como um luxo. Depois das férias junto ao mar, a próxima viagem para desligar pode muito bem ser no meio do deserto.


































