Há restaurantes onde entramos e percebemos imediatamente que o jantar não vai ser propriamente discreto. O Addiction Modern Street Food, escondido na Rua Rodrigues Sampaio, a poucos metros da Avenida da Liberdade, recebe-nos num ambiente escuro e intimista, onde os tons vermelhos, a iluminação baixa e a decoração moderna criam uma atmosfera quase sensual.
O espaço abriu em 2024 pelas mãos de Yasmine Van-Dúnem e Ricardo Manita, os antigos responsáveis pelo RUA, no Príncipe Real. A mudança trouxe um restaurante maior e um conceito mais ambicioso, construído em torno de sabores de diferentes partes do mundo, cocktails e música.
Na decoração, um dos elementos que mais chama a atenção é o enorme Baco, deus do vinho e da festa, pintado pela dupla espanhola PichiAvo. Há ainda um pátio interior de inspiração marroquina e até a zona das casas de banho foge ao convencional, com sofás, espelhos, néons e uma iluminação ainda mais escura. Ao fim de semana, a música também ganha protagonismo, com DJ sets.
A comida segue a mesma lógica do espaço. O conceito é modern street food, com pratos pensados sobretudo para colocar no centro da mesa e partilhar. Encontramos influências asiáticas, sul-americanas, europeias e africanas, mas apresentadas de forma mais cuidada e sofisticada do que aquilo que normalmente associamos à comida de rua.

Nós fomos experimentar o jantar e percebemos rapidamente que uma das graças da carta está precisamente nas combinações menos óbvias. Há lagosta dentro de gyozas e de pão brioche, sabores japoneses misturados com ingredientes portugueses e até uma bola de Berlim que, em vez de creme, esconde pulled pork.
Abrimos a refeição com a Selection of Oysters (22€), uma seleção de seis ostras de Setúbal servidas de três formas diferentes. As Natural Oysters são a versão mais simples, acompanhadas apenas por lima, deixando o sabor fresco e salino da ostra assumir o protagonismo. Nas Summer Breeze, a combinação torna-se mais tropical, com sorbet de manga, malagueta e uma espuma de lima. Já as Addiction Oysters levam molho ponzu, pickles de kumquat, la-yu, um óleo japonês picante, e cebolinho.
Apesar de serem muito diferentes entre si, as três versões chegaram muito frescas e saborosas, permitindo começar pela ostra praticamente ao natural e avançar para combinações progressivamente mais intensas.
Seguimos para o Beef Tartare (15€), preparado com lombo de novilho, caramelo de soja, maionese fumada e pó de cebola. O tártaro chega acompanhado por uma espécie de lâminas finas e crocantes de massa de gyoza, que funcionam como pequenas tostas para ir retirando a carne. Foi um dos pratos em que o equilíbrio dos temperos mais se destacou. A carne estava muito fresca, o caramelo de soja acrescentava um ligeiro contraste adocicado e a maionese fumada dava profundidade sem se sobrepor ao sabor do novilho.
Uma bola de Berlim que esconde uma surpresa


Foi depois que chegou à mesa uma das propostas mais improváveis da carta. O Pulled Pork (12€) pega num doce que associamos imediatamente ao verão português e transforma-o num prato salgado.
São mini bolas de Berlim cobertas de açúcar e recheadas com carne de porco desfiada, acompanhada por coleslaw, puré de cebola caramelizada e sésamo.
Pode parecer uma combinação estranha no papel, mas funciona surpreendentemente bem. O açúcar no exterior da massa contrasta com a carne salgada e suculenta, enquanto a cebola caramelizada prolonga esse jogo entre doce e salgado. O coleslaw acrescenta frescura e ajuda a cortar a riqueza do conjunto.
Se este prato chamou a atenção pela combinação, a Lobster Gyoza (14€) foi uma das maiores surpresas do jantar. Dentro da massa encontramos pedaços bem percetíveis de lagosta salteada em manteiga de ervas. As gyozas são servidas num dashi de alga kombu, um caldo japonês muito rico em umami, e terminadas com tobiko preto e la-yu.

A lagosta voltou a aparecer no Lobster Roll (23€), desta vez proveniente do Algarve e salteada em manteiga de ervas. É servida com molho de kimchi e tobiko preto dentro de um pão brioche feito na casa.
Aqui, voltamos ao contraste entre doce e salgado que atravessa vários pratos da carta. O brioche é macio e ligeiramente adocicado, enquanto a lagosta traz delicadeza e o kimchi acrescenta intensidade e um toque picante. Foi uma das combinações mais simples da noite, mas também uma das mais bem conseguidas.
Depois de vários pratos para partilhar, experimentámos duas sobremesas que mantêm a vontade do Addiction de brincar com sabores e, sobretudo, com texturas.
A nossa favorita foi a Delicate Tropical (11€). Parte de um cheesecake com base crocante, ao qual se juntam a acidez do ananás, a doçura da manga e gelado de manjericão.
É precisamente este último elemento que faz a diferença. O sabor é muito fresco e herbal e impede que a sobremesa se torne demasiado doce ou pesada. Entre a cremosidade do cheesecake, a base crocante, a fruta e o gelado, há várias texturas e temperaturas no mesmo prato, mas o resultado mantém-se leve e equilibrado.
A Amazonian (12€) segue um caminho completamente diferente e fez-nos lembrar uma espécie de açaí desconstruído.
A sobremesa combina um semifrio aveludado de dulce de leche com crumble de chocolate salgado, toffee de caramelo, frutos vermelhos, hortelã e pequenos macarons artesanais de açaí. É uma proposta mais intensa, mas também mais inesperada, sobretudo pelo contraste entre a textura cremosa do semifrio, o crocante do chocolate e os macarons.
Também há cocktails para acompanhar


Os cocktails têm bastante protagonismo no Addiction e nós experimentámos dois com perfis completamente diferentes. A carta foi pensada com a mesma lógica da cozinha, pegando em combinações conhecidas e acrescentando ingredientes menos habituais.
O Boy From Rio (13€) leva cachaça Leblon, manga, coco e malagueta. É tropical e frutado, mas a malagueta aparece no final e dá-lhe um toque picante que evita que a manga e o coco tornem a bebida demasiado doce.
Já o Luxury Mojito (15€) é uma interpretação mais sofisticada do clássico. Junta rum escuro, flor de sabugueiro, morango, hortelã e espumante, ficando mais frutado e efervescente do que um mojito tradicional.
No final, aquilo de que mais gostámos no Addiction foi precisamente o equilíbrio entre um restaurante descontraído e uma cozinha mais trabalhada. A carta foi feita para partilhar e tem a informalidade da street food, mas os ingredientes, os temperos e a apresentação levam os pratos para outro registo.
Há combinações que parecem arriscadas quando as lemos no menu, mas não provámos nenhum prato em que os vários elementos parecessem estar juntos apenas para surpreender. Tudo estava bem temperado e, sobretudo, fazia sentido quando chegava à boca.
O ambiente ajuda a completar a experiência. Com a sala a meia-luz, os tons vermelhos, a música e os cocktails, é daqueles restaurantes que funcionam tão bem para um jantar a dois como para uma noite com amigos em que ninguém está propriamente com pressa de sair da mesa.
O Addiction | Modern Street Food fica na Rua Rodrigues Sampaio, 21C, em Lisboa, junto à Avenida da Liberdade. Atualmente, abre à terça-feira a partir das 17 horas, de quarta-feira a sábado a partir das 12 horas e ao domingo a partir das 10 horas.



























