Calatayud, na província de Saragoça, em Espanha
Calatayud, na província de Saragoça, em Espanha

Depois de Saragoça, a viagem pelo coração de Aragão continuou rumo a territórios ainda desconhecidos para muitos turistas. Entre cidades históricas, vinhas em altitude, mosteiros escondidos entre cascatas e aldeias marcadas pela herança das três religiões, a região revelou uma Espanha profundamente autêntica, distante do turismo massificado e ligada às suas tradições.

O Vou Sair viajou a convite do Turismo de Espanha numa viagem de imprensa entre 15 e 19 de abril para conhecer Aragão. Nesta segunda parte da reportagem, depois de Saragoça, rumámos até Calatayud e depois Teruel, numa jornada onde o vinho, a cultura, a história e a gastronomia continuam a pautar a experiência.

São cidades pequenas onde o tempo parece andar mais devagar, com paisagens montanhosas dominadas por castelos medievais e uma forte presença da arte mudéjar. É uma região onde a influência muçulmana, judaica e cristã continua visível na arquitetura, no urbanismo e até nos detalhes das fachadas e das ruas.

Calatayud: a cidade das casas tortas, das três religiões e das cascatas escondidas

Calatayud, na província de Saragoça, é uma cidade de cerca de 20 mil habitantes onde a autenticidade continua intacta. O turismo praticamente não chegou aqui – nem mesmo o doméstico – e isso sente-se nas ruas tranquilas, no comércio local e no ambiente genuíno da cidade histórica.

Ao mesmo tempo, é impossível não reparar no impacto da passagem do tempo. Grande parte do centro histórico encontra-se degradado e necessita de restauro. Muitos edifícios exibem fachadas inclinadas, varandas desniveladas e estruturas aparentemente tortas. Mas é precisamente essa imperfeição que acabou por se tornar uma das imagens mais icónicas da cidade.

As famosas casas tortas (“casas torcidas”) de Calatayud concentram-se sobretudo na Plaza de España, a praça principal da cidade. As inclinações das fachadas e dos chamados “balcões corridos” (varandas) devem-se à combinação de vários fatores: o solo argiloso e de gesso, a proximidade do rio Jalón e um subsolo repleto de antigas adegas e galerias subterrâneas.

Mas não são apenas as casas que exibem estas deformações. Claustros, palácios históricos e até igrejas apresentam inclinações curiosas, como acontece na torre de San Pedro de los Francos ou em partes do claustro de Santa María.

Há também uma curiosidade histórica ligada às varandas da Plaza de España. Antigamente, os proprietários podiam vender ou arrendar os apartamentos, mas mantinham o direito de acesso às varandas durante festas e eventos realizados na praça. Esse privilégio ficava incluído no contrato – e ainda hoje existem descendentes de antigos proprietários que continuam a poder utilizá-las.

Calatayud é também um dos melhores exemplos da convivência histórica entre muçulmanos, judeus e cristãos em Aragão. A herança das três culturas continua visível no desenho urbano, nos edifícios históricos e até nas placas das ruas, onde aparecem símbolos como cruzes, estrelas judaicas e meias-luas islâmicas. Nas antigas judiarias, continua igualmente muito presente o uso do azul celeste nas fachadas e portas.

Durante a estadia em Calatayud, ficámos alojados na Hospedería Mesón de la Dolores, um hotel de três estrelas instalado num edifício histórico considerado um dos mais antigos da cidade. O nome presta homenagem à lendária figura de “La Dolores”, personagem associada a Calatayud e conhecida por encantar todos os viajantes que passavam pela antiga estalagem onde trabalhava.

Hoje, a Hospedería combina tradição aragonesa com um ambiente familiar e acolhedor. Dispõe de 34 quartos e preserva o espírito histórico do edifício original. O preço por noite varia geralmente entre 60€ e 90€, dependendo da época e do tipo de quarto.

O restaurante mantém uma forte identidade tradicional, com ambiente de tasca e cozinha caseira local. Entre os pratos experimentados destacam-se a borragem com arroz e amêijoas (16€) e o típico Ternasco al barro (25€), preparado com cordeiro aragonês – uma das grandes especialidades gastronómicas da região.

A poucos quilómetros de Calatayud encontra-se um dos lugares mais surpreendentes de Aragão: o Monasterio de Piedra. Instalado num antigo mosteiro cisterciense em Nuévalos, o espaço combina património histórico, hotel, spa e um enorme parque repleto de cascatas, lagos, riachos e grutas. O nome “Piedra” vem precisamente do rio que atravessa toda a propriedade e molda a paisagem exuberante do local.

O hotel ocupa parte do mosteiro histórico e funciona num edifício classificado como Património Histórico. Entre corredores abobadados, claustros do século XIII e antigas celas dos monges transformadas em 62 quartos, a experiência transporta os visitantes para outra época. O espaço dispõe de piscina exterior, spa, restaurantes, bares, jardins e zonas de relaxamento. O preço médio por noite varia entre 115€ e 140€.

O mosteiro foi consagrado em 1218 e conserva importantes elementos da arquitetura cisterciense, incluindo igreja, claustro, cozinha, adega, refeitório e sala capitular. Um dos detalhes mais curiosos é a ligação histórica ao chocolate. O Monasterio de Piedra é considerado o local onde foi preparado o primeiro chocolate quente da Europa, por volta de 1534. Os monges cistercienses criaram uma bebida à base de cacau, açúcar, canela e baunilha, tradição hoje explicada na exposição “História do Chocolate”. Atualmente, o mosteiro acolhe também casamentos e outros eventos.

Mas o grande destaque é o parque natural. O percurso circular, com cerca de 2,9 a 5 quilómetros, demora entre duas a três horas e atravessa cascatas, lagos, grutas e vegetação. Pelo caminho surgem pontos emblemáticos como a cascata Cola de Caballo, a Gruta Iris, o Lago del Espejo e a impressionante cascata La Caprichosa, onde a água cai de uma altura de cerca de 30 metros.

O bilhete para o parque natural, com visita ao mosteiro incluída, custa 19,70€ para adultos entre os 12 e os 64 anos. No local existe ainda o restaurante Piedra Vieja, com menus do dia de 17€ e 28€.

O vinho Garnacha que nasce nas montanhas de Aragão

A região de Saragoça afirma-se também como um dos grandes territórios do vinho Garnacha em Espanha.

Uma das visitas mais interessantes foi às Bodegas San Alejandro, em Miedes de Aragón, uma cooperativa fundada em 1962 e hoje considerada uma referência da D.O. Calatayud. Aqui, a uva Garnacha cresce em condições extremas: vinhas plantadas a cerca de 1.060 metros de altitude, com verões muito quentes, invernos rigorosos e solos ricos em minerais. O resultado são vinhos intensos, aromáticos e profundamente ligados ao território.

Os preços variam bastante, desde cerca de 4€ por garrafa até aos 100€ nas referências mais premium, como Cuevas de Arom. Já a gama mais acessível é Viñas de Miedes. A adega aposta também fortemente no enoturismo: a visita guiada com prova de três vinhos e três tapas custa 20€ por pessoa.

Está ainda prestes a ser inaugurado o Theatre of Nature and Senses, um novo edifício dedicado a experiências sensoriais ligadas ao vinho, explorando aromas, texturas e sensações táteis. A adega conta também com restaurante em parceria com uma escola de turismo e hotelaria da região. Funciona apenas por reserva e para grupos mínimos de dez pessoas, incluindo ateliers de cozinha. O preço ronda os 50€ por pessoa.

Almonacid de la Sierra

A cerca de 35 a 40 minutos de carro de Calatayud encontra-se outra adega completamente diferente: a Libre y Salvaje, em Almonacid de la Sierra. Aqui, o conceito centra-se na recuperação de vinhas antigas e abandonadas, respeitando ao máximo os ritmos da natureza e intervindo o mínimo possível no processo de produção.

A adega foi adquirida em 2018 e recupera vinhas localizadas entre os 650 e os 950 metros de altitude na Serra de Algairén. A filosofia da casa resume-se numa ideia simples: produzir vinhos que expressem o território de forma natural e autêntica. Depois da fermentação, os vinhos envelhecem em antigas grutas subterrâneas, onde a temperatura e humidade permanecem estáveis durante todo o ano.

As castas principais são Garnacha e Cariñena, mas a adega produz também orange wines. Entre os rótulos mais conhecidos estão Libre y Salvaje Cariñena 2021, Libre y Salvaje Garnacha Blanca, Porretón, Paco el Feo e Camino del Bosque. Os preços variam entre 9,50€ e 25€ por garrafa.

A experiência de visita com prova de três vinhos (tinto, branco e laranja), acompanhados por três tapas, custa 25€ por pessoa.

Teruel: a cidade mudéjar onde o amor trágico, o jámon e a história dominam as ruas

Depois de Calatayud, seguimos viagem até Teruel, uma pequena cidade aragonesa com cerca de 37 mil habitantes, considerada a capital da arte mudéjar. Este estilo artístico, desenvolvido entre os séculos XII e XVII, resulta da fusão entre influências cristãs e islâmicas, funcionando como ponte entre os dois universos culturais.

Durante a estadia, ficámos alojados no Hotel Oriente Teruel, um hotel de três estrelas localizado no centro da cidade. Com 39 quartos, ambiente acolhedor e decoração cheia de personalidade, é uma opção prática para explorar Teruel a pé. Os preços médios variam entre 40€ e 70€ por noite, dependendo da época e do tipo de quarto.

O coração da cidade é a Plaza del Torico, oficialmente chamada Plaza Carlos Castel, mas conhecida por todos devido à pequena estátua de touro que coroa a fonte central. A praça funciona como principal ponto de encontro da cidade, rodeada por cafés, esplanadas e edifícios modernistas.

Segundo a lenda, a fundação de Teruel aconteceu depois de os cristãos avistarem um touro numa colina com uma estrela brilhando sobre ele. Interpretaram o sinal como vontade divina e fundaram ali a cidade. O touro e a estrela continuam hoje presentes no brasão local.

As fachadas modernistas da praça revelam também a influência da Art Nouveau europeia e o desejo da burguesia local em demonstrar estatuto económico. Entre os edifícios mais emblemáticos destacam-se a Casa del Torico, atualmente sede da Caja Rural de Teruel, e a Casa La Madrileña.

Outro dos grandes símbolos da cidade são as quatro torres mudéjares declaradas Património Mundial da UNESCO em 1986: a Torre da Catedral de Santa María de Mediavilla, a Torre de San Salvador, a Torre de San Martín e a Torre da Igreja de San Pedro. Construídas entre os séculos XIII e XIV, distinguem-se pelo uso de tijolo, cerâmica vidrada e decoração geométrica inspirada na arte islâmica.

A Catedral de Santa María de Mediavilla é considerada uma das construções mudéjares mais importantes de Espanha. O bilhete combinado para visitar a Catedral e o Museu Diocesano custa 8€ com visita guiada ou 7€ em visita livre. Apenas o museu custa 6€.

Mas Teruel guarda também uma das histórias de amor mais trágicas de Espanha. O Mausoléu dos Amantes conta a história de Isabel de Segura e Diego de Marcilla, conhecidos como os “Romeu e Julieta espanhóis”.

Segundo a lenda, os dois jovens apaixonaram-se no início do século XIII, mas Diego, sem fortuna suficiente para casar, recebeu cinco anos para enriquecer. Partiu para a guerra e regressou apenas quando Isabel já estava casada com outro homem. Desesperado, pediu-lhe um beijo, mas Isabel recusou. Diego morreu de tristeza. No funeral, Isabel aproximou-se do corpo e deu finalmente o beijo que negara em vida, morrendo logo depois ao seu lado.

O atual mausoléu foi inaugurado em 2005 e inclui várias salas expositivas dedicadas à história dos amantes e à influência cultural da lenda ao longo dos séculos. No centro do espaço encontram-se as famosas esculturas em alabastro de Diego e Isabel, deitados lado a lado, com as mãos estendidas sem nunca se tocarem – símbolo de um amor impossível e eterno.

A visita completa ao Mausoléu dos Amantes, Igreja de San Pedro, claustro mudéjar, jardins, torre e ándito custa 10€, incluindo visita guiada ou audioguia.

Onde comer em Teruel: do Jamón de Teruel à trufa negra

Em Teruel, há dois produtos incontornáveis: o Jamón de Teruel e a trufa negra. Um dos locais mais conhecidos para petiscar é o Las Cuatro Esquinas, ideal para provar tapas, queijos, enchidos, jámon da região e vinhos locais.

Outra referência é o restaurante El Mercao de Teruel, que aposta numa cozinha regional mais contemporânea. O menu do dia custa 25€ e inclui entrada, prato principal e sobremesa. Entre os pratos disponíveis estão migas aragonesas com carne de porco, ovo estrelado, uvas e azeite trufado; taco de borrego aragonês com cogumelos shiitake e parmentier trufado; bacalhau gratinado com trufa preta e cogumelos porcini; e a famosa tarte de queijo.

A ligação de Teruel à trufa negra é enorme. A província é atualmente reconhecida como o maior produtor mundial deste ingrediente. Cerca de 75% da produção mundial de trufa negra cultivada concentra-se na região de Sarrión, situada a cerca de 1h30 de carro de Teruel.

As condições naturais explicam o sucesso: altitude próxima dos mil metros, clima frio e temperatura média anual de cerca de 11 graus. A província de Teruel possui cerca de 10,4 mil hectares de plantação de trufa, dos quais 2,2 mil hectares pertencem ao município de Sarrión.

Como chegar a Calatayud e Teruel

Para chegar a Calatayud, a forma mais prática é voar até Madrid e depois apanhar um comboio direto. A viagem demora cerca de uma hora.

Já para Teruel, as opções mais comuns passam por voar para Madrid ou Valência. A partir de Madrid, o percurso de comboio até Teruel demora cerca de cinco horas. Outra possibilidade é voar para Valência e continuar de comboio regional até Teruel, numa viagem entre 2h e 2h30.

*A jornalista viajou até Saragoça a convite do Turismo de Espanha.

Leia a primeira parte da reportagem: Saragoça: encontrámos a Espanha mais autêntica entre duas catedrais, tapas e vinho Garnacha.

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