Passámos três dias em Florença com um plano muito simples: visitar a Galleria dell’Accademia, onde está o icónico David, de Miguel Ângelo, e a Galleria degli Uffizi, um dos museus mais importantes do mundo. O resto? Deixámos ao acaso. Entre ruas renascentistas, gastronomia italiana, pores do sol inesquecíveis e uma exposição de Mark Rothko que não estava nos planos, descobrimos que o maior encanto de Florença acontece precisamente quando deixamos de seguir o mapa.
Passava pouco das 11 horas quando aterrámos no aeroporto de Florença, naquela sexta-feira, 10 de abril deste ano. Era um fim de semana prolongado, ainda com cheiro a férias da Páscoa, e levávamos connosco pouca bagagem e ainda menos planeamento.
Na verdade, havia apenas três certezas: o hotel reservado — o Eurostars Florence Boutique — e os bilhetes para dois museus. A Galleria dell’Accademia, onde está o incontornável David, de Miguel Ângelo, e a Galleria degli Uffizi, considerada um dos mais importantes museus de arte do mundo e que integra a lista de Os 100 Museus Mais Belos do Mundo, de Manfred Leier, um livro que, curiosamente, tinha comprado apenas dois meses antes numa feira de antiguidades. A publicação é de 2006 e, entretanto, haverá certamente muitos museus que mereciam ali estar. Mas há clássicos que nunca saem de moda, e o Uffizi é um deles.
Florença não é uma cidade para visitar de relógio na mão nem para cumprir um itinerário ao minuto. Ainda assim, há uma exceção: convém reservar antecipadamente a entrada na Galleria dell’Accademia e na Galleria degli Uffizi. Não porque comprar online seja muito mais barato — não é —, mas porque garante a entrada à hora marcada e evita as longas filas que se formam diariamente à porta de ambos os museus.
Achámos que duas visitas seriam suficientes para ocupar um fim de semana e, ao mesmo tempo, deixar espaço para aquilo que Florença tem de melhor: a cidade em si. E tem muito.
Circular por Florença é surpreendentemente simples e relativamente económico. O centro histórico concentra praticamente todas as grandes atrações e faz-se quase sempre a pé. Durante os três dias, só precisámos de recorrer aos transportes públicos para ir do aeroporto até ao hotel e fazer o percurso inverso no regresso. A viagem de elétrico demora cerca de 15 minutos e custa apenas 1,70 euros.
Deixámos as malas no Eurostars Florence Boutique, localizado na Piazza Piave, uma escolha que acabou por se revelar acertada. Situado no limite do centro histórico, está suficientemente perto para chegar a todas as atrações a pé, mas longe o bastante da agitação constante que caracteriza as ruas mais turísticas.
Aliás, uma das primeiras coisas que me chamou a atenção em Florença foi precisamente a forma como a cidade preservou o seu património. Não me recordo de ter visto hotéis de construção recente no centro histórico. Certamente existem, mas estarão sobretudo nas zonas periféricas. Quem opta por ficar no coração da cidade ficará, muito provavelmente, alojado num edifício histórico recuperado, como acontece com o Eurostars Florence Boutique.
O hotel ocupa um antigo edifício do século XVIII, hoje transformado numa unidade de apenas 29 quartos. Por detrás da fachada histórica encontra-se um ambiente contemporâneo, luminoso e minimalista, onde predominam os tons de branco e algumas peças de design que acrescentam um toque de irreverência ao espaço. O resultado é um ambiente tranquilo, quase etéreo, particularmente bem-vindo depois de um dia inteiro a percorrer as ruas de Florença.
Tratando-se de um boutique hotel de cidade, pensado sobretudo para quem passa o dia a explorar o destino, não dispõe de restaurante. Serve apenas pequeno-almoço numa sala acolhedora.
A maior surpresa, contudo, estava reservada para o topo do edifício.
Um pequeno rooftop oferece uma vista de 360 graus sobre a cidade, onde o olhar alcança facilmente a cúpula do Duomo, a Piazzale Michelangelo e os telhados avermelhados que desenham o horizonte florentino. Ao pôr do sol, é difícil imaginar um lugar melhor para terminar o dia.
Foi dali que partimos para descobrir Florença.
Uma cidade que consegue ser, ao mesmo tempo, desafiante e fascinante. A quantidade de turistas pode tornar a circulação um verdadeiro teste à paciência, mas basta levantar os olhos para perceber que vale a pena. Em poucas cidades senti uma concentração tão grande de beleza artística como aqui — talvez apenas em Roma. Em Florença, cada praça parece um museu ao ar livre. As esculturas renascentistas convivem naturalmente com músicos, pintores e ilustradores que transformam as ruas numa galeria viva.
Primeiro destino: a Galleria dell’Accademia
Começámos pelos pesos pesados. Fundada em 1794 pelo Grão-Duque Pietro Leopoldo para servir de apoio aos estudantes da vizinha Academia de Belas-Artes, a Galleria dell’Accademia guarda algumas das obras mais importantes de Miguel Ângelo.
Mas todos sabem ao que vão. O protagonista absoluto é David.
Por muito que se veja fotografias antes da visita, nada prepara verdadeiramente para o momento em que a escultura surge ao fundo da galeria. Os seus mais de cinco metros de altura, a perfeição anatómica e a imponência fazem com que toda a atenção converja para ela. Durante largos minutos, ninguém parece ter pressa. As conversas abrandam, os telemóveis levantam-se e instala-se um raro momento de contemplação coletiva.
É uma daquelas obras que justificam, por si só, uma viagem.



Além de David, o museu reúne outras esculturas incontornáveis de Miguel Ângelo, como os Prigioni (Prisioneiros), o São Mateus e a Pietà Palestrina, permitindo acompanhar diferentes fases do trabalho do mestre renascentista. Passámos ali praticamente toda a tarde. E soube a pouco.
Foi precisamente por isso que decidimos não cometer o erro de visitar a Galleria dell’Accademia e a Galleria degli Uffizi no mesmo dia. Seria, como dizemos em Portugal, “meter o Rossio na Rua da Betesga”. A dimensão e a riqueza de ambos os museus exigem tempo.
A Galleria degli Uffizi ficou reservada para a manhã seguinte.
Um museu onde é impossível ver tudo
Na manhã de sábado chegou a vez da Galleria degli Uffizi. À hora marcada no bilhete, lá estávamos nós à porta daquele que é, para muitos, o mais importante museu de Itália e um dos mais extraordinários do mundo.
O edifício, desenhado por Giorgio Vasari entre 1560 e 1580 para albergar os escritórios administrativos da poderosa família Médici, acolhe hoje uma coleção absolutamente impressionante de pintura e escultura, que atravessa séculos de História da Arte. Giotto, Botticelli, Leonardo da Vinci, Rafael, Miguel Ângelo, Ticiano e Caravaggio são apenas alguns dos nomes representados.
Rapidamente percebemos uma coisa: é impossível ver tudo com a atenção que cada obra merece. Podíamos passar um dia inteiro dentro do museu — ou até dois — e, ainda assim, sair com a sensação de que ficou muito por descobrir.
Foi precisamente por isso que decidi entrar com uma estratégia muito simples. Em vez de tentar ver todas as salas ao mesmo ritmo, escolhi antecipadamente um conjunto de obras que não queria mesmo perder. Tudo o resto seria uma descoberta feita sem pressas, ao sabor do percurso. A primeira paragem obrigatória foi O Nascimento de Vénus, de Sandro Botticelli.






Provavelmente uma das pinturas mais reproduzidas da História da Arte, continua a surpreender quando a vemos ao vivo. O tamanho da tela, a delicadeza das figuras e a leveza da composição fazem perceber porque continua a ser um dos grandes símbolos do Renascimento italiano.
Na mesma sala encontra-se outra obra incontornável do pintor: A Primavera. Durante largos minutos limitei-me a observar a quantidade quase infinita de detalhes, personagens e simbolismos que escapam a qualquer fotografia.
A viagem prosseguiu até A Anunciação, de Leonardo da Vinci, onde já se percebe o domínio da luz, da perspetiva e da anatomia que viria a transformar a pintura ocidental.
Pouco depois surge uma das poucas pinturas concluídas por Miguel Ângelo: o Tondo Doni. Acostumados a associá-lo sobretudo à escultura, é curioso perceber como o seu olhar escultórico está presente também na pintura, através da monumentalidade das figuras e da intensidade das cores.
Entre as obras que fazia questão de ver estava ainda a impressionante Medusa, de Caravaggio. Pintada sobre um escudo de madeira, transmite uma sensação quase inquietante, como se a cabeça acabasse de ser decapitada naquele preciso instante. É uma das obras que mais facilmente ficam na memória dos visitantes.
Claro que pelo caminho fomos encontrando dezenas de outras pinturas que mereciam igual atenção. No final, percebi que a estratégia tinha resultado.
Depois dos museus, a melhor forma de conhecer Florença é perdermo-nos
Cumpridas as duas grandes metas que tínhamos traçado para este fim de semana — visitar a Galleria dell’Accademia e a Galleria degli Uffizi —, o resto do tempo foi dedicado ao melhor que Florença tem para oferecer: simplesmente vivê-la.
Há cidades que pedem um roteiro rigoroso. Florença pede exatamente o contrário.
Pede para nos perdermos pelas ruas estreitas, para entrar numa pequena livraria sem saber o que vamos encontrar, espreitar lojas de artesanato onde ainda se trabalha o couro à mão, descobrir pequenas praças escondidas e parar apenas porque uma esplanada parece demasiado convidativa para continuar a caminhar. Foi isso que fizemos.
Entre uma caminhada e outra, houve tempo para provar a verdadeira gastronomia italiana, sem grandes preocupações em seguir listas de restaurantes “imperdíveis”. Em Florença, quase sempre que nos sentámos à mesa acertámos. Pastas frescas, pizzas de massa fina e vinho toscano fazem parte da experiência tanto quanto qualquer monumento.
E, claro, houve também espaço para um dos grandes rituais italianos: comer um gelado artesanal na Piazza della Signoria.
Sentado na praça, rodeado por esculturas que parecem pertencer a um museu ao ar livre, percebe-se facilmente porque esta continua a ser um dos lugares mais fascinantes da cidade. A poucos metros erguem-se o Palazzo Vecchio, a Fonte de Neptuno e a célebre Loggia dei Lanzi, onde obras-primas da escultura convivem naturalmente com milhares de visitantes que ali passam todos os dias.
Da Piazza della Signoria seguimos até outro dos grandes símbolos de Florença: a Ponte Vecchio.

Sabíamos que íamos encontrar gente. Mas não imaginávamos tanta. A ponte, ladeada pelas históricas joalharias que ali resistem há séculos, estava completamente tomada por turistas. Caminhar tornou-se quase um exercício de paciência, mas bastava olhar para o rio Arno e para as fachadas coloridas refletidas na água para perceber que aquele “banho de multidão” fazia parte da experiência.
Nem tudo, contudo, passou por fugir às multidões. Também decidimos seguir uma das tendências que mais circulam nas redes sociais: subir ao final da tarde até à Piazzale Michelangelo para assistir ao pôr do sol.


Percebe-se facilmente porquê. À medida que o sol começa a descer, centenas de pessoas ocupam os degraus e o miradouro, aguardando em silêncio o momento em que a cidade ganha tons dourados. Lá em baixo, o rio Arno serpenteia entre as pontes, os telhados de terracota iluminam-se e a enorme cúpula de Santa Maria del Fiore domina completamente a paisagem.
É uma imagem que dificilmente se esquece.
Confesso que optámos por não subir ao Duomo. Sabia que a visita exigiria várias horas entre filas, percursos e subida à cúpula, tempo que preferimos investir a descobrir a cidade ao nosso ritmo. E, sinceramente, contemplá-lo do exterior já é um privilégio. A catedral está sempre presente. Surge ao fundo de uma rua, aparece inesperadamente entre edifícios ou domina a linha do horizonte a partir de quase qualquer ponto elevado da cidade. É impossível esquecer que estamos em Florença quando o Duomo está sempre ali.




A surpresa inesperada da viagem
Ao longo de todo o fim de semana havia um cartaz que se repetia praticamente em todas as ruas por onde passávamos. “Rothko in Florence”. Durante dois dias resistimos à tentação. Mas, no último dia, acabámos por ceder à curiosidade e entrar no Palazzo Strozzi. Foi uma das melhores decisões da viagem.
Patente até 23 de agosto de 2026, a exposição reúne uma das mais importantes retrospetivas alguma vez dedicadas a Mark Rothko, incontornável mestre da pintura moderna americana.
Com curadoria de Christopher Rothko, filho do artista, e de Elena Geuna, a mostra apresenta mais de 70 obras provenientes de algumas das mais prestigiadas instituições do mundo, entre elas o MoMA, o Metropolitan Museum of Art, a Tate e o Centre Pompidou.



O percurso acompanha toda a evolução artística de Rothko, desde as primeiras pinturas figurativas dos anos 30 até aos célebres campos de cor que marcaram definitivamente a história da arte contemporânea. Mas aquilo que torna esta exposição verdadeiramente especial é a ligação criada entre Rothko e Florença.
A mostra revela como a primeira visita do pintor à cidade, em 1950, despertou nele uma profunda admiração pelo Renascimento italiano. Essa influência é explorada não apenas no Palazzo Strozzi, mas também através de um diálogo com outros espaços emblemáticos da cidade, como o Museo di San Marco, onde as obras de Rothko são colocadas frente aos frescos de Fra Angelico, e a Biblioteca Medicea Laurenziana, cuja arquitetura de Miguel Ângelo inspirou uma das suas séries mais célebres, os Seagram Murals.
Foi um final perfeito para uma viagem que começou com Miguel Ângelo, passou por Botticelli, Leonardo e Caravaggio e terminou diante dos grandes campos de cor de Rothko.
Porque Florença tem esta capacidade rara: tanto nos emociona perante uma escultura criada há mais de cinco séculos como nos faz parar em silêncio diante de uma tela abstrata do século XX.
No fundo, foi essa a maior surpresa destes três dias. Descobrir que Florença não vive apenas do seu passado glorioso. Continua, ainda hoje, a ser uma cidade onde a arte acontece.

































