Rio Dulce, Honduras e El Salvador

Por Paulo Pavão

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Sabia que ia ser um dia duro de estrada, mas estava bem preparado pois a noite na pequena cidade de Flores tinha sido bem tranquila.
O percurso fez-se em 4h30 de viagem rumo a sul por entre as províncias de Petén e Izabal, até às margens do Rio Dulce.

Pelo caminho passei por várias zonas agrícolas e o mais curioso é que, a dada altura, deparei-me com vários “montículos”, como localmente denominados, e que são zonas de pirâmides e templos maias que já se encontram identificadas pelos arqueólogos, mas que ainda não iniciaram a respetiva exploração e limpeza.

Chegado a Rio Dulce, pequena cidade assim denominada por se localizar nas margens do rio com o mesmo nome, e feito o check-in no hotel, embarquei numa pequena lancha rio abaixo até ao lago Izabal e à aldeia de Livingston, frente ao Oceano Atlântico. Ao longo do trajeto, visitei a fortaleza de São Felipe de Lara, construída pelos espanhóis no seculo XVII e que serviu de ponto de defesa contra piratas. O percurso atravessa várias zonas de intensa natureza e pequenas ilhotas de repouso de aves autóctones e de macacos uivadores, entre outras espécies de fauna local. As povoações ao longo do rio são bastante curiosas, com casas feitas de madeira e pintadas de cores vivas, em contraste com a natureza pura. O ponto alto foi passar pelo canhão natural, com paisagens fabulosas e em que o verde refletido no leito do rio cria uma imagem espelho que transmite uma tranquilidade profunda.

Chegando a Livingston, o pequeno porto estava repleto de pelicanos pousados em embarcações abandonadas e o som que emitiam era muito curioso, parecendo que estava na hora de procurarem uma refeição. Na verdade, era hora de almoço e até a mim me estava a abrir apetite. Após um breve passeio pela rua comercial da aldeia e que vai desde a foz do rio Dulce até ao Oceano Atlântico, foi altura de degustar um verdadeiro prato local, o “tapado de coco”. Trata-se de um caldo com peixe e marisco, confecionado com leite de coco e várias especiarias locais. Posso dizer que foi a melhor experiência gastronómica de toda a viagem e em quase todos os restaurantes se serve esta iguaria.

Tapado de Coco

A população de Livingston é conhecida pela sua cultura “garifuna”, caracterizada pelas influências caribenhas e africanas que foram chegando a esta zona (Belize, Guatemala e Honduras) durante o período colonial. Convivem em plenitude com a população maia também residente, mas, no entanto, não se misturam entre si. Aqui ouvem-se os ritmos quentes do caribe e dança-se a típica “punta”.

De tarde, e já no hotel, foi tempo para uns relaxantes mergulhos na piscina, em plenas margens do rio. Havia oportunidade para fazer kayak, mas já não me restava energia para tanto. Assim, decidi descansar um pouco na rede exterior do bungalow e usufruir daquela tranquilidade.


No dia seguinte, e com as baterias carregadas de boa energia, voltei à estrada a caminho de mais uma zona arqueológica: “Quiriguá”. Esta seria a minha última paragem por terras da Guatemala. Uns bons quilómetros antes de chegar, a paisagem era dominada por grandes extensões de plantações de bananas, e na estada cruzei-me com inúmeros camiões das conhecidas marcas Chiquita e Delmonte, que vêm fazer a recolha da fruta para posteriormente ser distribuída em exportação com embalagem de outro país da região.

Declarada Património da Humanidade da Unesco em 1979, Quiriguá é uma antiga cidade maia habitada desde o século II a.C, em pleno período clássico. A zona arqueológica tem magníficos monumentos de vários séculos com magníficas estelas ou estátuas e calendários esculpidos em arenito, que constituem uma fonte de estudo sobre a civilização maia. O parque arqueológico possui a praça central, a praça cerimonial, a acrópole, construída em pirâmides e terraços, e ainda as curiosas figuras zoomórficas em pedra.


Uma das maiores atrações é a estela/estátua mais alta existente, com cerca de 11 metros de altura.

Foi uma grande surpresa a visita a Quiriguá, o que me enriqueceu grandemente, pois nunca tinha ouvido falar desta zona arqueológica maia e por isso não havia espectativa alguma.

Após esta excelente visita histórica, segui viagem até à fronteira de El Florido para entrar nas Honduras. Mais um curioso e simples posto fronteiriço com processo rápido de saída e entrada. Num dos guichés carimbam a saída da Guatemala e no guiché imediatamente ao lado dão a entrada nas Honduras mediante o pagamento de uma pequena taxa de 5 USD.

Cerca de 20 minutos depois, já estava a entrar na localidade de Copán Ruínas. A cidade é muito curiosa, pequena, em estilo colonial e com comércio muito próprio. Os habitantes dedicam-se grandemente à agricultura e ganadaria, sendo muito comum encontrar pelas ruas os homens vestidos de rancheiros, de bota alta e chapéu tipo cowboy. Todo o ambiente é muito rústico e o meu hotel estava mesmo junto à praça central, o que permitiu à chegada um tranquilo passeio pelas suas ruas, sentir o ambiente e gastar as primeiras lempiras (moeda local).

Copán Ruínas, Honduras

O café, o cacau/chocolate, o tabaco e chapéus são produtos de excelência nesta zona das Honduras e que podem incluir nos souvenirs a comprar.

No dia seguinte de manhã visitei a zona arqueológica de Copán Ruínas que está a cerca de dois quilómetros de distância. As Honduras possuem duas nomeações como Património Mundial da Unesco e esta é uma delas. Situada hoje no extremo oeste do país, foi palco de uma das maiores cidades maias do período clássico e teve o seu apogeu entre os séculos V e IX, sendo atualmente uma das maiores atrações turísticas da Honduras.

A zona arqueológica de Copán é famosa por ter produzido a maior série de estelas (estátuas) que retratam os eventos ocorridos ao longo da história da civilização maia. Grande parte delas encontram-se na praça central adjacente à acrópole. As inscrições e relevos decorativos são os exemplos mais importantes do que permanece da antiga arte meso americana.


A acrópole é constituída por vários palácios e templos, e na praça cerimonial, em muito bom estado de conservação, consegue-se encontrar o conhecido “jogo da pelota”, constituído por duas estruturas paralelas com 23 metros de comprimento e três metros de altura. Trata-se de um excelente exemplar deste ritual maia junto ao qual ainda se encontram bem conservadas as salas que serviam de balneários para os jogadores.

Este foi também um momento alto da viagem e mais uma aula de história da civilização maia, pois os guias que ali trabalham têm um conhecimento muito aprofundado de toda a viagem temporal que é necessário fazer para entender a vida quotidiana desta civilização naqueles tempos.

Era agora tempo de seguir para a próxima paragem, que já seria em território de El Salvador. Foram cerca de duas horas até à fronteira e, mais uma vez, a entrada no país foi simples e rápida.

Entrando em El Salvador, a paisagem revela-se mais visível à distância, uma vez que o país é menos montanhoso, embora existam alguns vulcões, dado que o seu território também faz parte da zona do anel de fogo do pacífico. Em todo o país existem 23 vulcões, sendo que oito se encontram ativos. Dito assim parece assustador, mas para quem aqui vive é uma realidade muito consciente, permitindo viver o dia a dia de forma muito pacífica. Por exemplo, uma semana antes de eu chegar o vulcão San Miguel entrou em erupção, expelindo alguma lava, mas nada que tenha afetado as povoações vizinha.

El Salvador é um pequeno país com cerca de 21,000 quilómetros quadrados e com aproximadamente de 6 milhões de habitantes. Tem costa marítima para o oceano pacífico e é muito conhecido pelas suas praias de areia negra com excelentes condições para a prática do surf; a playa El Tunco é das mais conhecidas.

Com muita pena minha, desta vez não visitei a zona da costa e parei agora em Santa Ana, a terceira maior cidade do país. Trata-se de uma cidade de estilo colonial, mas as suas origens ainda remontam ao período pré-clássico.

Nas proximidades de Santa Ana há inúmeras atividades relacionadas com a natureza para realizar. Existem três vulcões (Santa Ana, Cerro Verde e Itzalgo) e também o lago Coatepeque. Os vulcões de Santa Ana ou llamatepec e Cerro Verde são os mais turísticos, com excelentes vistas entre eles, podendo desfrutar-se também da vista para o lago e para o oceano pacífico. Ficar uns dois dias nesta cidade é o mais aconselhável para aproveitar todas as atividades em redor.

Casa 180

A cerca de uma hora de Santa Ana encontram-se as ruínas maias de “Joya del Cerén“, também declaradas Património Mundial da Unesco em 1993. Nesta zona arqueológica o que se visita não são pirâmides, templos, acrópoles ou estelas, mas sim um importante local onde se podem conhecer pormenores da vida quotidiana de uma aldeia agrícola maia do século VII, altura em que a mesma foi destruída por uma erupção vulcânica. É denominada a pompeia das américas. Não se conhece ainda a real extensão deste local, uma vez que continuam os trabalhos de prospeção arqueológica e o local apenas foi descoberto em 1976. É muito curioso ver as casas dos habitantes que eram constituídas por três unidades: dormitórios, cozinha e armazém. No museu adjacente às ruínas encontram-se expostas inúmeras peças e utensílios de uso comum tais como facas, mós, vasilhas e taças, muitas deles em excelente estado de conservação. Uma boa surpresa, esta zona arqueológica tão pouco conhecida e divulgada.

O dia já ia bem avançado e era tempo de descansar. Segui então para cidade de Suchitoto onde me esperava um tranquilo quarto no hotel “Casa 1800”.

Casa 1800

Esta é a cidade colonial por excelência de El Salvador onde todo o casario é de época. Não existem edifícios altos e a maioria das ruas são empedradas. Tornou-se um importante destino turístico após o final da guerra civil a partir de meados dos anos 90. Aos poucos, foram abrindo pequeno hotéis respeitando a traça colonial, cafés, restaurantes e lojas de artesanato. A cidade foi-se tornando cada vez mais um centro cultural e artístico e fica a apenas a uma hora da capital, San Salvador.

A localidade estava em festa, com uma celebração religiosa e também a eleição da Miss Suchitoto dirigida por conhecidos aprestadores salvadorenhos. Todo o parque central estava repleto de carrosséis, bancas de comida e bebida, um palco gigante e muita, muita música. Foi de fato um privilégio assistir a esta comemoração local e ver como a população vive de forma intensa estes acontecimentos.

No dia seguinte o meu pequeno almoço no hotel foi servido ao ar livre com vistas para o lago Suchitlán; uma paisagem que trouxe comigo na memória e que vou manter para sempre. Estava preparado para mais um dia de novas experiências. Na cidade, já desperta da grande festa da noite anterior, tive oportunidade de visitar calmamente alguns dos edifícios históricos como a Igreja de Santa Luzia, a Casa museu do escritor Alejandro Coto, a Cascata de los Tercios e tomar um café salvadorenho na emblemática “Casa de la Abuela”.



Antes ainda de deixar a cidade experienciei ainda a famosa arte de anil. Uma pequena fábrica/tinturaria onde muito produtos como lenços, toalhas, t-shirts, camisas, bolsas etc são tingidos de indigo/anil (azul), respeitando as tradições ancestrais e utilizando fibras naturais e orgânicas. Irma Guardón recebeu-me com um enorme sorriso e com grande amabilidade explicou-me toda a história do seu negócio e as técnicas usadas para conseguir tingir todas as peças que vende na sua loja. https://www.arteanil.com/.

A próxima paragem foi a capital do país, San Salvador; uma cidade com uma grande densidade populacional e onde afluem diariamente milhares de pessoas dos 13 municípios que a circundam para participar nos vários setores da economia e indústria.
No centro histórico da cidade os locais de destaque são:

  • A catedral metropolitana de San Salvador, palco de um massacre onde morreram dezenas de pessoas num ataque ocorrido durante o funeral do Arcebispo Óscar Romero o qual se se encontra sepultado num edifício adjacente e é local de peregrinação.
  • A Igreja do Rosário, edifício único da arte contemporânea de El Slavador que apesar da sua estrutura exterior sombria, surpreende no interior pela audácia do arquiteto Ruben Martínez que conseguiu eliminar a maior parte dos pilares tradicionais e construir um espaço mais aberto de arejado em forma de arco e repleto de vitrais coloridos o que lhe dá uma luminosidade muito especial.
  • O Palácio Nacional é de visita obrigatório e tem tour guiados gratuitos. Trata-se de uma reconstrução em estilo neoclássico e renascentista do anterior Palácio que foi alvo de incêndio em 1899. É possível ver os principais salões e algumas salas adjacentes e ainda o bonito jardim interior com palmeiras. Aqui encontra-se também o arquivo geral da nação.
  • O Museu Nacional de Antropologia Dr. David Guzman que reflete a identidade e a diversidade cultural do povo salvadorenho por meio de exposições permanentes, itinerantes e programas educativos.

Findas as visitas de San Salvador e antes de voltar à estrada, foi altura de degustar um almoço tradicional com as famosas “pupusas” (tortilhas de milho espessa recheadas com vários condimentos salgados e acompanhadas com uma especial salada de couve). A distância até à minha próxima paragem fez-se tranquilamente em 2h30 por paisagens planas, onde o verde continua dominante e incluindo a passagem pelo famoso vulcão San Miguel que uns dias antes tinha tido uma erupção. Foi impressionante ver como ainda fumegava.


Nesta noite fiquei na cidade de La Unión, estrategicamente escolhida, apenas por ser o ponto de embarque para atravessar o Golfo de Fonseca e chegar à Nicarágua.

No dia seguinte iria conhecer um novo país, uma nova cultura e umas novas gentes…

(Continua)

Paulo Pavão – Trabalha na indústria do turismo há 20 anos e adora conhecer o mundo. É um viajante e não um turista. Recentemente fez uma viagem pela América Central que agora relata em vários artigos no Vou Sair.

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